A agência Lupa, primeira agência de fact-checking do Brasil, desmente vídeo sobre duplicação da BR-101

Foto: Reprodução
Circula pelas redes sociais um vídeo gravado em um trecho em obras da rodovia BR-101 que estaria sendo feito pelo governo de Jair Bolsonaro (sem partido). O responsável pela gravação diz se tratar de um segmento da estrada nas proximidades da cidade de Alagoinhas, na Bahia. Ele mostra a pavimentação que estaria sendo executada na duplicação da estrada, em concreto, supostamente pelo atual governo, e elogia o trabalho. O registro teria sido feito em 19 de abril deste ano. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado.

“BR-101, sentido Aracaju à Bahia. Eu tô aqui próximo a Alagoinhas. (…) Olha a largura do concreto. Olha pra isso. Vai dar mais ou menos um palmo só de concreto. Ferragem… O que o PT não fez em 16 anos, Bolsonaro está fazendo em dois anos e meio, juntamente com o ministro Tarcísio, hoje considerado o rei do asfalto, que o homem está duplicando o Brasil inteiro”.

A informação analisada pela Lupa é falsa. A duplicação de um trecho de 165 quilômetros da BR-101 na Bahia começou a ser executada em 2014, durante o governo da presidente Dilma Rousseff (PT). As obras continuaram com o presidente Michel Temer (MDB). Dois dos quatro trechos foram paralisados em dezembro de 2018, e um deles continua parado no governo Bolsonaro. Dados do sistema de acompanhamento do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) mostram ainda que a execução desse trabalho recebeu menos recursos atualmente do que no governo Temer.

O sistema de acompanhamento do Dnit mostra em detalhes todas as obras que estão sendo executadas em estradas do país. A duplicação da BR-101 na Bahia envolve quatro contratos (05 00748/2014, 05 00749/2014, 05 00750/2014 e 05 00751/2014), todos assinados em 2014. A escolha de que a pavimentação seria feita com concreto, fato citado no vídeo, foi definida naquela época, em edital. O projeto integrava o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

De acordo com o monitoramento feito pelo Dnit, a conclusão dos quatro trechos está atrasada. Nesta segunda-feira (26), Bolsonaro foi à Bahia para inaugurar 22 quilômetros de pistas, somados, em três deles.

De 2015 a 2018, ou seja, no final do governo Dilma e durante o período Temer, a duplicação da BR-101 na Bahia recebeu R$ 291,2 milhões. Já de 2019 a 2021, no governo Bolsonaro, o valor foi de R$ 111,8 milhões – equivalentes a 27,7% do total. No comparativo entre o que foi gasto a cada ano, Bolsonaro também não superou, até agora, os valores destinados por Temer à obra em 2017 e 2018 (R$ 95 milhões e R$ 163 milhões, respectivamente).

Os dois segmentos que avançaram mais são os que estão mais próximos da divisa com Sergipe. Isso ocorreu, no entanto, principalmente durante o governo Temer, como é possível verificar no próprio sistema do Dnit. O contrato 05 00748/2014, que vai do km 0 ao 41,6, teve 88,46% da terraplanagem (36,8 quilômetros) e 84,52% do revestimento (35,16 quilômetros) concluídos. Já o contrato 05 00749/2014, que vai do km 41,6 ao 83,6, contabilizou 84,24% da terraplanagem (35,38 quilômetros) e 68,93% do revestimento (28,95 quilômetros).

As outras duas partes da estrada em duplicação estão mais atrasadas. O trecho entre os km 83,6 e 124,8 (contrato 05 00750/2014), que passa por Alagoinhas, teve apenas 28,22% da terraplanagem feita (11,57 quilômetros). Os dados de execução financeira compilados pelo Dnit revelam que o governo Bolsonaro não destinou recursos até o momento para a obra nesse local. Isso também foi confirmado pelo órgão, em nota enviada por e-mail. O segmento localizado entre os km 124,6 e 165,4 (contrato 05 00751/2014) teve 91,30% da terraplanagem finalizada (37,25 quilômetros), mas somente 20,86% do revestimento foi aplicado (8,51 quilômetros).

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

Fonte: Agência Lupa / Piauí Folha

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here