A chantagem da cloroquina

Como a Prevent Senior me coagiu a tomar o kit Covid – Gustavo Guardabassi.

30set2021_16:24

A rede de planos de saúde e hospitais Prevent Senior tornou-se alvo da CPI da Pandemia depois que ex-médicos da rede denunciaram o uso não autorizado de tratamentos ineficazes contra a Covid-19 em pacientes, a ocultação de mortes em pesquisas sobre a hidroxicloroquina e a adulteração de atestados de óbito. Descobriu-se que muitos dos pacientes internados nos hospitais da rede foram tratados com o chamado “kit Covid” sem saber e, em caso de morte, a declaração de óbito emitida pelo hospital não listava a Covid-19 como causa principal ou secundária. 

Ao investigar as razões que levaram os gestores da rede a adotarem tal conduta, a CPI busca entender se eles seguiram orientações do Palácio do Planalto, que montou “gabinete paralelo” para a divulgação de tratamentos não recomendados contra a doença. A piauí publica abaixo o depoimento de um paciente que conta ter sido coagido a usar o “kit Covid” por um médico da Prevent Senior, que ameaçou retirar a cobertura do plano caso ele não aceitasse o tratamento precoce.

(Em depoimento a Ana Clara Costa):

Sou produtor de eventos, tenho 38 anos e moro em São Paulo. Fui contaminado pela Covid-19 duas vezes – nas duas, fui tratado num hospital da Prevent Senior no bairro de Santana. A primeira vez foi logo no início da pandemia, em março de 2020. Comecei a sentir sintomas gripais e fui direto ao hospital me consultar na emergência. Por um exame de oxímetro, mediram minha saturação sanguínea, o que permite aferir a falta de oxigênio no corpo antes de o paciente começar a sentir falta de ar. Também fizeram uma ressonância nos meus pulmões para detectar se havia comprometimento em razão da inflamação viral.

Felizmente, detectaram que eu estava bem e me mandaram para casa, recomendando doses de Novalgina enquanto durassem os sintomas gripais.

Em junho deste ano, voltei a me contaminar. Mesmo tendo tomado a segunda dose da vacina, meu pai e minha madrasta começaram a sentir os sintomas. Minha madrasta passou por um episódio de desmaio, e eu fui até sua casa prestar socorro. Embora estivesse usando luvas e máscara, tive contato com o vírus. Dois dias depois de socorrê-la, em 7 de junho, comecei a sentir uma dor fortíssima na garganta. Me dirigi novamente ao hospital da Prevent Senior, temendo estar com Covid-19. Eu ainda não havia tomado a vacina.

Dessa vez, tudo foi diferente. Primeiro, passei por uma pré-triagem feita pela enfermagem. Mediram minha temperatura, a minha saturação sanguínea, perguntaram se eu sentia algum incômodo ou dor e me encaminharam para fazer o exame de Covid-19. Como o resultado não era imediato, me dispensaram e pediram que eu aguardasse o diagnóstico em casa. Como minha garganta estava muito inflamada, me receitaram um anti-inflamatório. Os sintomas, dessa vez, eram muito mais fortes. Não parecia gripe, como na primeira infecção. A dor na garganta era tão forte que me sentia como se tivesse uma faringite.

Cerca de seis horas depois do exame, recebi uma ligação da área de telemedicina da Prevent Senior. O médico me informou que meu exame testara reagente para o antígeno do vírus Sars-CoV-2 e que eu precisava iniciar imediatamente o tratamento. Estranhei, pois sabia que não havia um tratamento para a doença – e que poderia talvez tomar  um analgésico para aplacar possíveis sintomas de dor. Mas o médico foi taxativo: me falou que eles disponibilizariam o kit Covid e que eu deveria tomar a medicação. Perguntei então o que havia no kit. O médico me respondeu: hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina e prednisona, além de alguns complexos vitamínicos. Eu disse a ele que não tomaria hidroxicloroquina nem ivermectina por saber que eram medicamentos ineficazes no tratamento da doença. Tenho pressão alta e não posso tomar medicação aleatoriamente, sob o risco de piorar a minha condição. Disse: “Prefiro não tomar.”

Minha negativa não foi bem aceita pelo doutor. Ele tentou me convencer dos benefícios da hidroxicloroquina e da ivermectina. Em seguida, partiu para uma pressão mais incisiva: disse que era o único tratamento recomendado pelo plano de saúde. Eu continuei reticente, e ele então arrematou: se eu não seguisse o tratamento prescrito pelo plano, a Prevent Senior não se responsabilizaria em caso de complicações com a doença. Ou seja, se eu precisasse de internação ou qualquer outro tratamento, eles não poderiam cobrir em razão da minha negativa em seguir com o tratamento prescrito. Então pedi ao médico que me informasse seu registro no Conselho Regional de Medicina e seu nome completo. Ele tentou me enrolar, dizendo que a ligação estava sendo gravada. Ou seja, que eu poderia requerer o conteúdo gravado se assim desejasse.

Não insisti para que me revelasse seus dados porque pensei que, quando me enviassem a receita médica para o kit Covid, haveria seu nome e CRM, ou de algum médico responsável. Ou seja, algum profissional responderia por aquilo. Qual não foi minha surpresa quando, logo depois de desligar a chamada, recebi as prescrições sem as informações do profissional responsável. O documento veio por meio de mensagem de celular e eu também podia acessá-lo no site da Prevent Senior. Ocorre que não havia qualquer informação sobre o médico: havia apenas um código de seis dígitos que eu deveria apresentar na farmácia e, assim, ter a medicação liberada.

Fiquei me questionando sobre aceitar ou não essa medicação. Mas a verdade é que eu estava muito assustado. Tenho a comorbidade da pressão alta e estava sentindo muita dor de garganta. Fiquei com medo de não usar e depois ter minha internação negada pelo plano, caso o quadro evoluísse para uma infecção mais grave. Como seria se isso ocorresse? Eu iria me tratar como? Que tipo de transtorno eu causaria para a minha família?

Diante desses temores, resolvi usar o kit. Como eu não podia sair de casa, minha cunhada foi até a farmácia e comprou a medicação. As doses eram altas. No primeiro dia, dois comprimidos de sulfato de hidroxicloroquina de 400 mg, quatro de ivermectina de 6 mg, três de prednisona de 20 mg e um de azitromicina. Nos dias seguintes, as doses se alternavam. Mas a hidroxicloroquina tinha de ser ingerida diariamente até o sétimo dia de tratamento.

Me senti muito mal durante esse período. Tive arritmia cardíaca, diarreia e falta de ar – efeitos colaterais que nunca saberei se foram causados pelo vírus ou pela medicação. Ao final dos sete dias, uma enfermeira me ligou para perguntar como eu estava e se eu havia ingerido o kit Covid corretamente. Eu já estava me sentindo melhor, e os sintomas estavam desaparecendo. Respondi ao seu questionário e desliguei. Hoje, vejo que fui coagido a fazer o uso de remédios contra a minha vontade, sob ameaça de não ter a cobertura do plano caso precisasse de internação. Diante das revelações feitas pela CPI da Pandemia sobre a Prevent Senior, vejo que não fui o único e que houve situações piores que a minha, em que médicos e gestores agiram com crueldade, negando atendimento ou prescrevendo tratamentos ineficazes. Pedi acesso ao áudio do tele-atendimento e vou processá-los para buscar reparação. Mas sinto por aqueles que, seguindo as prescrições dos médicos da Prevent Senior, não estão mais aqui para fazer o mesmo.

 

Gustavo Guardabassi

Produtor de eventos em São Paulo.

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