A insensatez de Bolsonaro

Se não mudar sua atitude em relação à Covid-19, o presidente deverá ser acusado não apenas de crime de responsabilidade, mas provavelmente de crime contra a humanidade.

É ao mesmo tempo desesperador e revoltante que Jair Bolsonaro seja presidente do Brasil neste momento crítico da história humana. Desesperador porque se trata de um ignorante, incapaz de aceitar a realidade científica e a ameaça representada pela Covid-19. Revoltante porque muita gente morrerá em virtude do que ele diz e faz. Num futuro não tão distante, se continuar a negar a realidade em suas palavras e atos, não se tratará apenas de crime de responsabilidade, mas provavelmente de crime contra a humanidade.

Líderes como Donald Trump ou Boris Johnson se viram, em questão de dias, obrigados a dar uma guinada em suas posições tolerantes com o contágio. Bolsonaro, mesmo diante de todas as evidências, lançou uma campanha irresponsável para que o brasileiro não deixe de trabalhar e volte a sair de casa. Conclamou o retorno das crianças às aulas e manteve como serviços essenciais cultos religiosos, focos centrais na transmissão da Covid-19 em países como Coreia e França.

Não há país que tenha conseguido combater o novo coronavírus sem medidas drásticas de distanciamento social. Na Itália, quem dizia há um mês que “a economia não pode parar” ou que dava para combater o vírus “sem ser tão radical” está hoje chocado com as pilhas de cadáveres e o colapso dos hospitais. O mesmo vale para China, Espanha ou França.

O Brasil se vê tomado agora por legiões de ignorantes, de todas as classes sociais, que acreditam ainda ser possível deter o contágio protegendo apenas aqueles com maior risco de morrer. Não há nenhuma base epidemiológica nesse tipo de quimera. O dano econômico inevitável da Covid-19 será tão menor quanto antes e mais rápido as áreas mais afetadas implementarem quarentenas rigorosas.

O governo precisa cuidar de quem ficará sem trabalho nesse período e de garantir crédito farto para evitar uma quebradeira generalizada. Mas negar a realidade científica não resolve nenhum dos dois problemas, nem a propagação do vírus, nem seu impacto econômico.

E a realidade científica, tristemente, é cristalina: o crescimento das infecções é exponencial. O número de infectados no Brasil tem dobrado num período estimado em 2,7 dias. Isso significa que, em dez dias, teremos quase 30 mil confirmados – o número real será obviamente maior, em virtude da limitação nos testes e dos casos sem sintomas. Serão até lá perto de 800 mortos. Dali a apenas três dias, quase 2 mil. De hoje a pouco mais de duas semanas, 5 mil.

Dado que o novo coronavírus tem um período longo de incubação, de até 14 dias, quase todas essas mortes resultarão de contágios que já aconteceram. Mesmo que todos os doentes venham a receber nas próximas semanas o melhor tratamento possível, são uma realidade estatística incontornável. O que fizermos a partir de hoje só começará a surtir qualquer efeito depois de duas semanas.

Daí em diante, mantida a evolução atual da epidemia, haverá quase 30 mil mortes em um mês. Mais de 25 mil poderiam ser evitadas se as regiões atingidas já estivessem em quarentena e se houvesse vigilância estrita para evitar a explosão de focos nas demais – se, em vez incentivá-las, Bolsonaro ficasse quieto e deixasse as equipes de saúde do governo fazerem o que precisa ser feito.

O crescimento exponencial prosseguirá enquanto houver oportunidades de transmissão e pessoas suscetíveis ao contágio, abundantes num país com 210 milhões de habitantes. Quantos mortos serão necessários para Bolsonaro e os ignorantes que o aplaudem acordarem? 50 mil? 100 mil? 300 mil? 500 mil? 1 milhão?

São hoje cenários absolutamente plausíveis se o Brasil se comportar segundo a visão estapafúrdia e irresponsável, hoje defendida pelos incapazes de entender na prática como funcionam as progressões geométricas. A ignorância se dissemina por todas as classes sociais, com destaque especial para o mercado financeiro, onde muitos parecem só entender de matemática quando lhes interessa.

Ainda não há vacina, nem drogas comprovadamente eficazes para reduzir o período em que um infectado pode transmitir o vírus. Bolsonaro comete, portanto, outro desserviço e ilude a população menos informada ao promover um tratamento ainda em fase experimental. Na impossibilidade de reduzir o número de suscetíveis pela vacinação, só nos resta tentar evitar as oportunidades de contágio por meio de distanciamento social, medidas de higiene, testes disseminados e isolamento dos infectados.

Esqueça, portanto, Bolsonaro. Esperemos que as vozes sensatas de Brasília vençam a batalha. A história saberá julgá-lo. E, por favor, lave bem as mãos e fique em casa.

Fonte: G1

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