Alta no juro da renda fixa – incertezas fiscais e políticas aumentam os riscos de investir no Brasil

Foto: Pixabay

Incertezas fiscais e políticas aumentam os riscos de investir no Brasil, impulsionando as taxas da renda fixa e derrubando os preços dos ativos.

Incertezas fiscais e políticas tomaram conta do mercado nas últimas semanas, com investidores preocupados com as ameaças ao teto de gastos, o principal pilar das contas públicas do país. São riscos novos como a proposta de parcelamento do pagamento de precatórios e a criação de um novo Bolsa Família turbinado em ano eleitoral. Há ainda os constantes atritos entre o presidente Jair Bolsonaro e os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Essa combinação de ruídos políticos e fiscais fez aumentar a percepção de risco do país. A consequência? Investidores reprecificaram ativos e passaram a pedir um prêmio maior para equilibrar o cenário. O Ibovespa passou dos 130.000 para os 120.000 pontos, o dólar disparou de 5,00 reais para 5,40 reais e, na renda fixa, a curva de juros abriu. Desde o início do mês, o juro futuro com vencimento em 2026 saltou 200 pontos base, chegando a ficar na casa dos 10% ao ano.

“Os investidores começam a cobrar mais para emprestar dinheiro ao governo. Isso aumenta o rendimento dos ativos de renda fixa com risco de mercado, que são os pré-fixados e os indexados à inflação”, afirma Guilherme Cadonhotto, especialista em renda fixa da casa de análises Spiti.

Em agosto, alguns títulos do Tesouro passaram a oferecer rentabilidades próximas à casa dos dois dígitos. O Tesouro Prefixado 2026 está com uma rentabilidade anual de 9,91%, enquanto o Tesouro IPCA 2026 oferece um retorno de 4,53% mais a inflação – totalizando um montante na casa dos 10%. Já o Tesouro Prefixado com juros semestrais 2031 apresenta uma rentabilidade anual de 10,57%. Veja abaixo os rendimentos nesta semana:

Título Rentabilidade anual
Tesouro Prefixado 2024 9,53%
Tesouro Prefixado 2026 9,91%
Tesouro Prefixado com juros semestrais 2031 10,57%
Tesouro Selic 2024 Selic + 0,1797%
Tesouro Selic 2027 Selic + 0,3019%
Tesouro IPCA+ 2026 IPCA + 4,53%
Tesouro IPCA+ 2035 IPCA + 4,70%
Tesouro IPCA+ 2045 IPCA + 4,70%
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2030 IPCA + 4,65%
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2040 IPCA + 4,78%
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2055 IPCA + 4,84%

 

Preço em queda: comprar ou vender? – Os preço desses ativos têm uma correlação inversamente proporcional à taxa de juros. Isso significa que, quando a taxa sobe, o preço de face cai na chamada marcação a mercado e isso se reflete na carteira do investidor. O Tesouro Prefixado 2026, por exemplo, acumula queda de 9,28% no ano.

Vale lembrar, no entanto, que o prejuízo só é efetivo se o investidor quiser negociar o título no mercado secundário antes do vencimento. Se o ativo for carregado até o prazo final, o investidor recebe o valor prometido na data de contratação do papel. Essa é a principal razão pela qual analistas não recomendam vender esses títulos agora, apesar da queda que aparece na carteira. Pelo contrário: a indicação de especialistas em renda fixa é de compra.

Veja abaixo o rendimento do papel com base no valor de face:

Título Rendimento em 2021 (em %) Rendimento em 12 meses (em %)
Tesouro Prefixado 2022 0,29 1,32
Tesouro Prefixado 2023 -2,59 -1,79
Tesouro Prefixado 2024
Tesouro Prefixado 2025 -7,35 -5,68
Tesouro Prefixado 2026 -9,28 -6,98
Tesouro Prefixado com juros semestrais 2023 -2,24 -1,25
Tesouro Prefixado com juros semestrais 2025 -6,63 -4,3
Tesouro Prefixado com juros semestrais 2027 -9,38 -6,03
Tesouro Prefixado com juros semestrais 2029 -11,53 -7,99
Tesouro Prefixado com juros semestrais 2031 -13,7 -10,04
Tesouro Selic 2023 1,85 2,42
Tesouro Selic 2024
Tesouro Selic 2025 1,62 1,9
Tesouro Selic 2027
Tesouro IGP-M+ com juros semestrais 2031 12,37 24,24
Tesouro IPCA+ 2024 -1,04 1,65
Tesouro IPCA+ 2026 -3,27 0,05
Tesouro IPCA+ 2035 -8,73 -0,17
Tesouro IPCA+ 2045 -18,96 -8,76
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2024 -0,38 2,61
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2026 -2,16 1,41
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2030 -5,15 0,92
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2035 -6,03 0,97
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2040 -6,08 1,15
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2045 -5,67 1,73
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2050 -6,96 0,77
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2055 -9,18 -0,83

 

“O momento atual é uma boa oportunidade de compra porque será muito difícil encontrar uma taxa em torno de 10% nos próximos anos. A taxa neutra de juros está perto de 6,5%, 7%. Não há razão para o Brasil apresentar, nos próximos três anos, um juros médio de 10% ao ano, sendo que a atividade econômica não vai ser das mais brilhantes”, argumenta Cadonhotto. Ele se refere ao fato de que, com a atividade em marcha lenta, os juros devem voltar a cair.

É o melhor momento para entrar? – Nesta terça-feira, 24 de agosto, o mercado de juros sofreu um impacto positivo após o presidente da Câmara, Arthur Lira, ter se posicionado publicamente a favor da proposta de deixar as despesas com precatórios fora do teto de gastos, como defende parte dos economistas. Os juros futuros de cinco anos caíram para 9,81%.

As perspectivas de médio prazo, no entanto, são as de que o cenário fiscal continue a se deteriorar, principalmente diante da expectativa por um cenário de alta volatilidade no ano eleitoral como 2022. Isso poderia deixar os preços do Tesouro ainda mais baixos e as taxas cada vez mais atrativas. A recomendação, no entanto, é não esperar.

“Ninguém vai acertar o ponto certo de entrada. O importante para o investidor é ter a certeza do recebimento de uma taxa nominal atrativa, e é justamente isso que temos agora”, explica Odilon Costa, analista de renda fixa e crédito privado do BTG Pactual digital.

O analista do BTG Pactual digital lembra que essa janela de oportunidade já está aberta há algum tempo para quem esteve atento. “Nossa indicação de compra começou lá em maio, e eu acredito que o movimento de ajuste de preços já está 40% dado. Ainda assim, existe um prêmio bastante interessante em alguns ativos”, completa Costa.

Isso vale também para títulos de crédito privado, que possuem liquidez menor que os do Tesouro, mas também oferecem boas oportunidades para o investidor que quiser carregar os títulos a médio e longo prazo.

Nesse segmento, a recomendação do BTG Pactual digital é de compra principalmente para títulos curtos e intermediários, com duração de até cinco anos. A análise aponta que as recentes altas da Selic ainda não estão precificadas em tais ativos.

A janela de oportunidade, no entanto, não deve durar muito. Analistas voltam a ressaltar que as taxas atuais dificilmente ficarão disponíveis até o final do ano, o que significa que o rendimento oferecido no vencimento será menor.

 

Fonte: Revista Exame

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