Avon, iFood e Natura: os drones são os novos entregadores

Empresas estão criando uma operação de entrega automatizada para reduzir as emissões de CO2 e o tempo do percurso. Entenda o que está por trás do negócio, o valor investido e os critérios para criar a própria operação delivery de drone.

Por Sabrina Bezerra – Quando empreendedores e fãs de compras por aplicativos e internet descobriram a nova tendência mundial de entregas de produtos por drones, surgiu uma corrida para fazer parte do experimento. Não à toa. O setor é coisa séria. E quem entrega melhor e mais rápido, pelo visto, sai na frente.

A modinha — que veio para ficar — tem feito barulho nos bastidores. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) recebeu apenas neste ano 35.144 pedidos de cadastros de drones para uso profissional. Segundo Ailton José de Oliveira Júnior, especialista em regulação na Anac, desses não é possível identificar quantos são para operação de delivery. Mas destaca que, ao longo do ano, muitos contatos de empresas interessadas no segmento foram feitos.

A startup Speedbird, por exemplo, foi a primeira a receber a autorização e a certificação da agência para fazer testes no ano passado. Já tem em sua cartela clientes como iFood, Avon e Natura (veja nos próximos tópicos).

No entanto, vale destacar que o uso ainda não é oficial. “Hoje, o que se tem no país são autorizações em caráter experimental”, diz Júnior.

DRONES COMO MEIOS DE ENTREGA

Sabemos que o assunto não é novo. O burburinho começou em 2013, quando Jeff Bezos, o manda-chuva da Amazon, disse que as entregas seriam feitas por drones nos próximos cinco anos. Bem, o prazo não foi cumprido, mas coincidência ou não, fez o mercado ficar atento ao modal.

A partir de então, a tendência surgiu, e empresas dos mais variados portes e segmentos correram para implementar o serviço. Por quê? Ora, oferece uma entrega mais rápida, com menos acidentes e contribui para o meio ambiente.

Contudo, ao contrário do que você imagina, no Brasil, ainda não é possível entregar os itens na janela do apartamento ou porta de casa. “Para chegar ao ponto de entregar na porta da residência da pessoa, muitos fatores precisam ser estudados. Como, por exemplo, como o equipamento saberia qual seria a janela correta, como a pessoa receberia, como manipularia os itens e outras complexidades”, conta Júnior.

Por enquanto, o uso de drone — das empresas que receberam a autorização da Anac — é feito em parte da rota das entregas. De lá, o entregador tradicional retira o produto e leva para casa dos clientes. “Neste primeiro momento, estamos estabelecendo operações mais controladas, com pontos fixos e rotas bem definidas”, afirma Júnior. “No entanto, como isso vai se desenvolver, também estamos curiosos para acompanhar”, completa.

ENTREGAS COM DRONE NO BRASIL

iFood

Os testes pilotos estão sendo feitos desde o ano passado entre o Shopping Iguatemi Campinas e o iFood Hub. Entre um e outro existe uma distância de, aproximadamente, 400 metros — e é neste percurso que o drone atua: levando os alimentos do shopping até o hub.

“A pé, esse trecho pode levar 12 minutos e, com o drone, são apenas 3 minutos”, conta em entrevista à StartSe Fernando Martins, head de logística e inovação do iFood. Segundo o executivo, os experimentos estão bem-sucedidos. “Alcançamos as metas estipuladas e fizemos mais de 300 entregas reais pelo iFood, com mais de 20 restaurantes parceiros”, diz ele.

E quais são os desafios? “Se o pedido for mais pesado do que a capacidade de carga, alocamos para um outro modal, como motocicletas e bicicletas. Isso porque, o drone utilizado tem capacidade para até 2 quilos, voa a 40 quilômetros por hora e alcança alturas de até 60 metros, o equivalente a um prédio de 20 andares. O desafio é mapear essas condições antes de destinar que a entrega seja feita por drone”, afirma Martins.

No quesito segurança, a empresa conta com um time em todas as pontas. “Em que opera o sistema e controla as saídas e as chegadas de pedidos com os drones.”

O valor do investimento não foi divulgado, mas a empresa destaca que já está mapeando novas oportunidades. “Nossa expectativa é testar em breve esses novos casos de uso, para que, no futuro, possamos escalar o modal com facilidade”, diz Martins. Será que a entrega por drone na janela do consumidor está próxima? Vamos aguardar.

Grupo Natura 

A gigante do mercado de beleza vai investir R$ 550 mil no projeto — que deve começar no primeiro trimestre de 2022 — de entrega com drones. Para isso, a empresa fechou parceria com a startup Speedbird e espera a autorização da Anac.

“A operação busca realizar as entregas de forma ágil e segura em locais mais afastados ou de difícil acesso (estão em análise áreas em locais como shoppings centers, condomínios residenciais e centros de distribuição)”, diz Leonardo Romano, diretor de cadeia de suprimentos, inovação e logística do grupo Natura &Co na América Latina.

A ideia é expandir a tecnologia e fazer com que ela chegue em todas as regiões do Brasil a medida em que mais rotas possam ser validadas e regulamentadas. Por enquanto, os testes serão feitos apenas com os produtos da Avon e Natura. “Mas o intuito é expandir para todo o grupo [como The Body Shop e Aesop]”, conta o executivo.

“A iniciativa está sendo implementada por Natura &Co por meio do Natura Startups, programa que reforça a atuação da companhia no ecossistema de inovação e empreendedorismo para o desenvolvimento de soluções e serviços disruptivos que melhor atendam às necessidades de nossas consultoras e representantes.”

E por que fechar parceria com uma startup e não criar a própria central de logística de drone? “Para construir um projeto seguro, eficiente e economicamente sustentável, precisamos de parceiros com reconhecida expertise. Por isso firmamos uma parceria com a startup brasileira Speedbird Aero, que é a primeira empresa a receber o CAVE (Certificado de Autorização de Voo Experimental) pela Anac”, diz Romano.

“[…] Eles serão os responsáveis por construir os sistemas de navegação capazes de transportar e fazer entregas de produtos Natura &Co. Isso vai proporcionar mais agilidade, fluidez e evolução para as operações logísticas das marcas”, completa.

COMO FAZER ENTREGAS POR DRONE

“Do lado da Anac, é basicamente fazer um cadastro online e, após aprovado, já pode operar”, diz Ailton José de Oliveira Júnior, especialista em regulação na Anac. 

Contudo, a operação depende de alguns fatores: seguir as regras da Anatel e da utilização do espaço aéreo do DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo).

Feito isso, se for uma operação mais simples, de até 25 quilos operados da linha de visada visual (VLOS), não precisa do certificado de aeronavegabilidade. Ou seja, um projeto autorizado pela Anac. Basta fazer o cadastro no Sistema de Aeronaves não Tripuladas (SISANT). Esta categoria é chamada de RPA (aeronaves remotamente pilotadas) de Classe 3 VLOS.

Já se for um drone “que opere além da linha de visada visual (BVLOS) ou acima de 400 pés em relação ao nível do solo deve ser registrado e possuir um Certificado de Aeronavegabilidade Especial para RPA – CAER”, diz a Anac.

Se o objetivo for usá-lo para decolagem entre 25 quilos e 150 quilos, também precisa da certificação. “A Anac busca ter uma regra proporcional em que, conforme vai aumentando o risco, ela tem uma intervenção maior. Se for uma operação de maior risco, por exemplo, a Anac tem uma preocupação maior”, afirma Júnior.

Para as operações mais simples, é permitido operar apenas em áreas distantes — no mínimo de 30 metros — de terceiros e operar com um único sistema de drone por vez. As de maiores riscos são avaliadas uma série de critérios, como por exemplo, “o sistema de navegação, o ambiente (área urbana ou rural), confiabilidade da aeronave (e se cair, falhar, o que acontece?), entre outros”, conta o especialista.

“A Anac, por sua vez, é super acolhedora das novidades da indústria”, completa.

POR QUE IMPORTA?

A procura por alternativas de entregas mais sustentáveis tem se tornado comum. Eu diria que até uma corrida para as empresas alcançarem as metas de menos emissões de carbono da Agenda 2030 e ESG.

“Para nós na Natura &Co ao longo dos próximos anos, a prioridade é que nossa cadeia logística continue aumentando sua contribuição para as metas do Compromisso com a Vida a 2030, portanto as medidas de adaptação e otimização devem reduzir emissões de CO2”, conta Leonardo Romano, diretor de cadeia de suprimentos, inovação e logística do grupo Natura &Co na América Latina.

Mas não apenas. Os drones são alternativas mais ágeis. Ou seja, o cliente recebe mais rápido. E o que isso significa? Consumidor mais feliz. Afinal, como temos falado bastante por aqui, ganha quem entrega em tempo recorde. 

“Esse sistema inteligente de entrega tem trazido inúmeros benefícios não só para a estratégia das empresas em reduzir significativamente o tempo de entrega, como também para o meio ambiente”, conta Romano.

Tendência mundial

Essas empresas estão seguindo a tendência de consumo de outros países. “Na Finlândia, Islândia, Suíça, China, Japão e Estados Unidos, os drones estão sendo utilizados para entregas de varejo, alimentos e medicamentos”, conta Romano.

Prova disso é que, recentemente, a Alphabet, holding controladora do Google, entregou mais de 10 mil cafés e 1.200 frangos assados para os clientes por meio da Wing, companhia que faz entregas via drone.

Se o futuro das entregas é o drone, a gente ainda não sabe. Seguimos acompanhando as novidades.

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Fonte: Starse

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