Baianos sofrem sem alternativas à alta de preços

Foto: Nara Gentil/CORREIO

Da gasolina ao pão francês, da energia ao leite, a reclamação é só uma: está tudo caro (e deve continuar)

Dona Elza parou de acordar a filha logo cedo. Deixava ela dormir até 11h, esperando que, assim, a menina de 8 anos não sentisse falta do café da manhã. Vinicius passou a trabalhar 12 horas por dia como motorista por aplicativo para ganhar menos do que quando começou – pagando mais pela gasolina. Liliane só tem garantido o sustento dos cinco filhos com uma doação de cesta básica. Na casa de Wellington, a carne deu lugar à sardinha em lata.

Essas são só algumas histórias. Talvez você que esteja lendo esse texto, nesse momento, enfrente dificuldades tão grandes quanto essas. Na verdade, é bem provável que esteja, como os indicadores econômicos brasileiros têm mostrado. Só para dar uma ideia, agosto de 2021 teve a inflação mais alta de todos os meses de agosto em quase 20 anos, puxada justamente pelos alimentos e pelos combustíveis. Ao mesmo tempo, um em cada sete baianos está endividado – assim como a média nacional, segundo a Confederação Nacional do Comércio. Tantos relatos como esses nos fazem questionar: quem consegue viver assim?

“Não dá, né? Para muita gente, não está dando”, responde a economista Rosana Queiroz, professora da UniFTC e mestra em Economia Regional e Políticas Públicas. Pode ser difícil encontrar uma resposta prática ou pontual para essa pergunta, mas, para ela, é preciso usar esses questionamentos tanto para reflexão quanto para ação.

Parece clichê, mas, em Economia, tudo é interligado. As variações se relacionam entre si.

“Como as pessoas vão buscar emprego com fome? Como vão dar conta de viver dignamente? A gente sabe que a alimentação é fundamental, mas existem tantas outras despesas que as pessoas precisam dar conta”, reforça Rosana.

Na última quarta-feira (25), o IBGE divulgou a prévia da inflação para o mês de agosto – o chamado Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) -, que acabou sendo o pior do país desde 2002. Na Região Metropolitana de Salvador (RMS), o índice para o mês ficou em 0,85%, o que é levemente abaixo da taxa nacional, de 0,89%.

Se o percentual parece pouco quando olhando sozinho, ele acaba sendo mais sentido quando se observa a variação para o ano. Nos últimos 12 meses, a inflação foi de 8,31% na RMS, contra 9,3% no Brasil. Nos oito meses de 2021, o percentual – 5,81% – já passa da meta para o ano, que era de 3,75%. “A gente não teve nenhum mês de alívio desde o segundo semestre do ano passado”, explica a supervisora de disseminação de informações do IBGE na Bahia, Mariana Viveiros.

Inflação pode ser um nome complicado para falar do aumento generalizado dos preços na cesta de produtos dos brasileiros, mas qualquer pessoa sabe reconhecê-la quando sente na pele. No caso da doméstica Elza Macedo, 47 anos, que mora em São Caetano com três dos quatro filhos, esses percentuais se apresentam sem cerimônia na hora da feira.

“Vou no mercado com R$ 200 e não trago nada. Antigamente, trazia alguma coisa. Hoje, volto estressada e triste”, diz.

A compra mensal da família vinha se reduzindo a um frango e um quilo dos principais alimentos – arroz, feijão, açúcar. “Mas quando chega no caixa, nem dá para passar tudo, porque ainda tem os materiais de higiene, que não podem faltar. Já chegou ao ponto de aqui em casa não ter papel higiênico. Porque entre o papel higiênico e o feijão, vai o feijão. Imagine quatro pessoas dentro de casa numa situação dessas. É complicado, difícil demais”, lamenta.

Os ‘vilões’ têm sido sempre os mesmos: alimentação, transportes (seja na categoria gasolina ou transportes por aplicativo) e energia. Dentre eles, alguns subitens chamam atenção: nos últimos 12 meses, por exemplo, frutas, açúcar e pão francês foram os produtos que mais aumentaram o preço. Quem deixou de comer carne para comprar frango também não está tendo a vida fácil – o pacote com pedaços de peito de frango se tornou o 10º alimento que mais contribuiu com a inflação ao longo do último ano, entre os mais de 300 produtos acompanhados pelo índice.

“Claro que cada família sente esse índice de uma forma diferente porque cada uma tem sua cesta. Mas o IPCA é importante, como indicador, porque ajuda a entender como anda a saúde econômica do país”, diz Mariana Viveiros, do IBGE. No entanto, isso não vale só para os alimentos. O índice de inflação é o que acaba indexando muitos outros reajustes – das mensalidades escolares aos financiamentos imobiliários.

Como tudo é sintomático e uma coisa puxa a outra, começamos a nos deparar com notícias como a previsão de que a indústria brasileira de massas alimentícias deve aumentar o faturamento entre 5% e 10% em 2021. O problema é que a associação que reúne as empresas, a Abimapi, atribui esse crescimento justamente a um fator: a venda de macarrão instantâneo, o miojo. Nesse cenário de preços altos e queda na renda das famílias durante a pandemia, um dos principais motivos para um produto tão pouco saudável ser tão procurado é justamente o fato de que é mais barato.

Trocas longe do ideal
A saída foi buscar estratégias. Com cada ida ao mercado se tornando um desafio maior, foi a vez dos estoques. O produtor cultural independente Wellington Morais, 35 anos, e a companheira começaram a comprar arroz em quantidade – para evitar que, assim, o preço subisse muito. Mas logo vieram as trocas, que nem sempre são saudáveis.

“A gente deixou de comprar carne, diminuiu o consumo de peixe. E começamos a comprar mais produto enlatado, que tem um preço um pouco mais baixo. Sardinha em lata, por exemplo. A qualidade da alimentação piorou”, admite ele.

Quando veio morar em Salvador, vindo de São Paulo, há dois anos, Wellington tinha expectativas com o meio artístico. Conhecido na área como Tom Kbélo, hoje observa o setor que foi um dos primeiros a parar de ser um dos últimos a retornar. Ainda que ajude, a lei Aldir Blanc, para ele, veio tardia. Por isso, o sofrimento com os aumentos de tudo foi ganhando contornos dramáticos.

“Se aumentar mais, vai ser caótico. Com o preço do combustível, a gente acaba sentindo os aumentos no mercado também, na hora de comprar um pão, de comprar comida. É simplesmente insustentável, é desesperador”, desabafa.

O relato de Wellington é uma das faces de um problema que tem crescido a passos largos no Brasil. Quando se fala em insegurança alimentar, alguns podem imaginar um estágio de total desnutrição. Mas a insegurança vem bem antes disso. Essa condição é medida numa escala que vai de leve a grave. Quando uma família se preocupa se vai conseguir ter acesso a alimentos no futuro ou quando passa a comer alimentos menos saudáveis como estratégia para não diminuir a quantidade, significa que ela já está em insegurança alimentar.

No primeiro ano da pandemia, seis em cada dez brasileiros estavam em insegurança alimentar. O número é de uma pesquisa da Universidade Livre de Berlim em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade de Brasília. O Nordeste registrou o maior percentual, entre as regiões brasileiras, com 73% da população vivendo nessas condições.

Sem saída
A conquista do Brasil em 2014 – sair do Mapa da Fome – não durou muito. Este ano, veio a confirmação: o país retornou ao vergonhoso patamar na ferramenta calculada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Por isso, para algumas famílias, a única estratégia possível é sobreviver.

Logo no início da pandemia, a doméstica Elza Macedo, 47, viu que a situação em casa não seria fácil. Em abril de 2020, ela descobriu um câncer de mama. Precisou ser afastada do restaurante onde trabalhava como auxiliar de cozinha e passou a receber o auxílio doença. Era assim que sustentava os três filhos – uma menina de 8, uma adolescente de 17 e um jovem de 26.

O garoto, que também trabalhava como auxiliar de cozinha, ajudava a segurar as pontas. Mas, há três meses, ele foi demitido. O drama da família aumentou quando, no início do mês, o benefício de Elza foi cortado.

Ela fez uma cirurgia para retirada das mamas em março e a perícia do INSS concluiu que pode voltar a trabalhar. “Ainda vou ter que fazer outra cirurgia para tirar um extensor. O médico perguntou se eu era canhota, eu disse que não. Ele achou que não me atrapalha, mas é algo que incomoda muito. Eu trabalho fazendo faxina, preciso dos dois braços”, diz.

O aluguel de R$ 500 reais está atrasado. A proprietária deu 10 dias para a família regularizar a situação. Somado a isso, vêm o recibo da luz e o botijão de gás de cozinha.

“Mas a nossa maior dificuldade é na alimentação. Às vezes, deixamos de comer, de ter uma refeição pela manhã ou o almoço-meio dia”, conta.

Há dois meses, porém, ela passou a receber a cesta básica da Central Única das Favelas (Cufa), que aliviou as coisas. Recebe, também, a cesta da Secretaria Municipal da Educação (SMS), mas a volta às aulas presenciais deixa o futuro desse auxílio em aberto (leia o relato dela abaixo). 

O drama é parecido com o da dona de casa Liliane Ramos, 33, outra das mães agora assistidas pela Cufa. Na casa onde mora com os cinco filhos – com idades entre 2 e 15 anos -, a renda vem do auxílio emergencial de R$ 375. O marido, que trabalhava como ajudante de depósito de caminhão, ficou desempregado há sete meses. Hoje, está doente e não pode trabalhar até fazer uma cirurgia. “Graças a Deus tenho casa própria. Mas são cinco filhos e a coisa está difícil. Tudo é caro. A gente vai no mercado e não compra mais nada, o gás está R$ 90”, diz.

Até o ano passado, ela até comprava carne. Hoje, parou de vez. “Compro frango ou peixe, mas não é todo dia. Não dá para o mês. Aí é a hora que tenho que apelar para uma irmã”, conta. No mercado, ela se organiza para comprar os itens de limpeza. Normalmente, pega só um de cada: um pacote de sabão em pó, uma garrafa de água sanitária, um sabonete, uma pasta de dente, um pacote de papel higiênico.

“Queria que as coisas melhorassem, não vou mentir. Não sou só eu, tem mais gente assim. Eu ainda consigo me virar, apesar dos cinco filhos, mas sei que ainda tem muita gente que está passando mais necessidade ainda”, diz.

Fator desemprego
Hoje, a Cufa atende 15 mil mães por mês na Bahia. Desse universo, 10 mil fazem parte do mesmo programa que vai oferecer cestas básicas de 17 kg por seis meses, até dezembro. O presidente da entidade, Márcio Lima, diz que os depoimentos de famílias desesperadas ficaram mais frequentes.

“Tem mães que, na pandemia, foram para restaurantes pegar sobras. Quando a Cufa entrou, deu esse alívio. Elas falam para a gente que, se não fosse isso, nem saberiam o que comer”. Apesar da doação das cestas, Marcio sabe que é preciso fazer mais. Por isso, a entidade tem feito capacitação para essas mulheres em cursos como o preparo de doces e salgados. Alguns bairros, como a Liberdade e Paripe, já tem recebido.

“A insegurança alimentar ficou gritante. Como a Cufa não é assistencialista, unimos essa questão da alimentação com a empregabilidade, para ajudá-las a se emancipar”, explica. Para ele, a emergência ficou ainda maior depois que o desemprego passou a aumentar. No primeiro trimestre de 2021, no último balanço divulgado pelo IBGE, o número de desempregados no Brasil havia chegado a 14,8 milhões. Em abril do ano passado, eram 12,8 milhões de brasileiros.

“Quem tinha emprego no ano passado, hoje não tem mais. O que tem é o subemprego. Querem que as pessoas façam um servicinho para receber um ‘agrado’. Por isso, é o pior momento da pandemia, tanto pelo desemprego quanto pelo aumento do produto. Tenho 40 anos e nunca tinha presenciado isso na capital”, diz ele. A Cufa está na Bahia há 16 anos.

Não é só comida. Os itens de limpeza e de higiene também são um problema. “Tem uma coisa simples que é absorvente. Mas ou a mçae compra o absorvente ou compra uma dúzia de ovos. Hoje, ela tem que ir ao mercado fazer escolhas”, diz Márcio. O ovo, inclusive, foi o item cujo consumo mais cresceu na pandemia, no Brasil. Segundo a Universidade Livre de Berlim, o aumento foi de 18,8%.

Riscos à saúde
O biscoito que vem nas cestas básicas, muitas vezes, tem substituído o pão – já que o próprio pão francês figura entre os maiores aumentos.  Algumas das mães assistidas tentam prorrogar a cesta básica com eles: pegam os biscoitos e batem no liquidificador com água. Dão aos filhos como papinha.

Nada disso vem sem consequências. Quando uma criança passa por privação de alimentos adequados em algum momento da vida, é possível que seu desenvolvimento seja afetado, como explica a pediatra e gastropediatra Juliana Bulhões, professora da Clínica UniFTC.

O desenvolvimento envolve toda a parte cognitiva da vida da criança e vai desde sua capacidade de engatinhar, ganhar marcos motores e sustentar o pescoço e o tronco até falar, escrever e se desenvolver intelectualmente. Um dos problemas também é a chamada fome oculta, quando a criança até come, mas os nutrientes não são adequados.

“O impacto disso vai depender muito de que faixa de idade essa criança está. Temos um período dos mil dias que vai da gestação até os dois primeiros anos de vida do bebê. É um período de velocidade de desenvolvimento cerebral muito grande, então vamos precisar da dieta adequada”, explica. Ou seja: se a ausência ou carência de nutrientes vem até os dois anos de idade, é possível ter atrasos graves no desenvolvimento, com repercussões para a vida inteira.

Se a dieta não tem nem proteínas de qualidade ou até gorduras ‘boas’, o crescimento também pode ser afetado. Assim, a criança pode ficar mais baixa e mais magra do que deveria ser. Muitas ainda acabam desenvolvendo anemia.

A maioria desses quadros pode ser revertida, a depender do período em que a criança passou pela privação, assim como a duração dela. A desnutrição seria uma das complicações finais importantes.

Para Juliana, ainda que seja difícil, é preciso recorrer às escolhas, entre os alimentos mais acessíveis. Raízes, como aipim, batata-doce e inhame, costumam ser mais baratos e têm bom valor nutricional. “Uma coisa que gosto muito é o cuscuz feito com o fubá de milho. É um alimento barato, que pode vir com ovo cozido, que é uma das proteínas mais fáceis”, diz. Em alguns casos, é preciso fazer suplementação  de nutrientes como cálcio e ferro, que deve ser prescrita por médicos. A consulta, assim como o recebimento dos suplementos, pode ser feita pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Em tempos de escassez de alimentos, se a fome atinge as crianças da família, significa que os adultos daquele núcleo já estão em fome há mais tempo, como explica a nutricionista Andrêa Ferreira, doutora em Saúde Pública e pós-doutoranda no Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fiocruz.

Antes mesmo da pandemia, a insegurança alimentar no Brasil já vinha aumentando – mais precisamente, desde 2016. Um dos principais impactos veio com a redução da cobertura de programas sociais como o Bolsa Família, ao longo dos anos. Assim, em casas onde a carne aparecia na mesa até quatro vezes por semana, o item virou quase luxo.

“Comprar um alimento que possa dar para toda a família ficou difícil. Por isso tivemos o aumento da venda de ultraprocessados como biscoito, miojo e sucos artificiais. Eles são mais baratos, têm baixo valor nutricional e muitas vezes dão uma falsa sensação de saciedade. As famílias lançam mão desses alimentos para tentar matar a fome, literalmente”, explica.

Alguns passam a comer os mesmos alimentos – ovo e miojo, por exemplo – e acabam caindo na chamada monotonia alimentar. Só que a falta de diversidade também é um perigo para a saúde integral. Além de afetar a energia para as atividades e até a capacidade de trabalhar, a insegurança alimentar em adultos pode levar ao agravamento de doenças crônicas como diabetes e hipertensão.

“Acho que todos nós, enquanto seres humanos, ficamos tristes não só pelo simbolismo de voltar ao Mapa da Fome como porque várias famílias retornaram à situação de extrema vulnerabilidade. E estão sem perspectiva, porque a pandemia veio para agravar esse quadro”, diz Andrêa.

O peso do dólar
O aumento dos preços dos alimentos é um dos fatores ligados ao dólar. Com o real desvalorizado hoje, todas as commodities agrícolas – ou seja, os produtos que servem como base para outros tantos – ficam mais caras. É o caso do milho, do trigo, da soja, do açúcar e de outros, todos cotados em dólar.

“Isso vai influenciar o produtor doméstico a exportar, ao invés de vender no mercado interno. Acaba reduzindo a oferta doméstica de produtos e empurra o preço para cima”, diz a economista Rosana Queiroz, professora da UniFTC.

É por isso que, ao mesmo tempo que consumidores reclamam do valor dos preços, o Produto Interno Bruto (PIB) Agropecuário vem atingindo números positivos no Brasil. Esta semana, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou que o índice deve crescer 1,7% este ano. Será o quinto ano de aumento consecutivo do PIB Agropecuário, sendo que, em 2020, esse foi o único setor econômico que não teve redução, mesmo com a pandemia. A previsão para 2022 é ainda mais otimista: 3,3% de crescimento.

“O Brasil tem o apelido de ser a fazenda ou o quintal do mundo. Mas, ao mesmo tempo que temos essa produção, milhões de brasileiros estão passando fome. Isso acaba sendo bastante incoerente”, diz.

Entre os fatores que encarecem os produtos hoje, um deles está diretamente ligado a outro grande vilão dos brasileiros hoje: o aumento dos combustíveis, que pode afetar o frete.

“As novas políticas da Petrobras são de dar um repasse da desvalorização cambial e também tem o reflexo do aumento da commodity do barril de petróleo”, diz o economista Alex Gama, professor da Unifacs e conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon).

O aumento dos combustíveis, portanto, tem o mesmo poder do reajuste da energia elétrica: afetar toda a cadeia de serviços logísticos, porque as empresas passam a ter margem de lucro reduzida. “De 1994 para cá, o dólar nunca esteve tão alto”, diz Gama. A instabilidade política, especialmente nas últimas semanas, contribui para essa desvalorização cambial – faz crescer, assim, o chamado ‘risco-país’, que é um indicador do grau de instabilidade econômica de um país.

“O Banco Central tem feito alguns leilões pontuais, vendido dólar, mas não tem contido. Eu acredito que a questão do arrefecimento da pandemia também levou investidores internacionais a diminuir o investimento no Brasil”, diz.

Tudo isso leva a um dos preços que mais pesa no bolso dos brasileiros hoje: o da gasolina. Se, na Bahia, alguns postos já vendem o litro a R$ 6,29, em alguns estados do Brasil, já passa dos R$ 7, como no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul.

“Culpar a Petrobras é cômodo, mas não é a solução”, diz o economista Denilson Lima, da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais do Estado (SEI).

Ele explica que, em 1997, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, o monopólio da Petrobras para exploração de petróleo no Brasil foi quebrado. No entanto, desde então, não houve investimentos suficientes que permitissem que outras empresas explorassem  esse segmento de refinados, a exemplo do diesel e da gasolina. A empresa continua com mais de 90% do mercado de derivados de petróleo no país.

Por isso, se a Petrobras diz que vai aumentar o preço, significa que ele vai aumentar para todos. “Os agentes econômicos têm um receio com a Petrobras. Quando o governo diz que vai segurar o preço e deixar de considerar a variação cambial, que é o custo do dólar, isso tem um custo”, explica.

Até que, em 2016, a Petrobras comunicou ao mercado que adotaria essa nova metodologia de preços, deixando de segurar o valor quando o dólar aumentasse. Mesmo assim, isso não foi suficiente para atrair outras empresas exploradoras. “O problema é que um governo pode querer mudar essa política. Aí, o agente privado começa a pensar: como vou entrar no lugar desse? O mercado sempre fica com medo do presidente daquela hora mudar (a política)”, diz.

Sem aplicativos
O efeito disso é ainda mais sentido por quem depende dos combustíveis para ter uma renda mensal. Com tantos reajustes, a autônoma Lu Vieira, 45, desistiu de vez de atuar como motorista por aplicativo. Ela entrou na área em 2017, em um aplicativo exclusivo para melhores que já não está em Salvador, e ficou de vez. Mas, em janeiro, saiu dos apps.

“No dia 4 de janeiro, eu saí para rodar e passei quase uma hora sem tocar nada. Antes da pandemia, minha meta diária era fazer R$ 250. Baixei para R$ 100 e virei a rainha dos R$ 50 no posto”, diz ela, que saiu antes mesmo do valor atual da gasolina.

Em junho, Lu vendeu o carro. Hoje, usa o carro do marido para fazer apenas viagens agendadas, inclusive intermunicipais e transporte de pets. “A tarifa mínima dos apps é de R$ 4,5. Com o combustível a quase R$ 7, a tarifa mínima hoje não roda nem um litro de gasolina”, desabafa ela, que tem procuro fazer cursos e estudar para concurso.

Na Bahia, ainda não há estimativa de quantos motoristas podem ter deixado os aplicativos. Segundo a Secretaria Municipal da Mobilidade (Semob), o único dado disponível é de 20 mil motoristas em Salvador, já que o órgão ainda está operacionalizando o sistema de transporte individual de passageiros e, por isso, não tem dados próprios. No entanto, em locais como São Paulo, a estimativa é de que 25% da categoria já tenha abandonado a área.

Além de histórias como a de Lu, o número de motoristas por aplicativo que têm pensado em sair tem crescido. É o caso de Vinícius Passos, 46, que trabalha na área há quatro anos, desde que foi demitido do cargo de supervisor em uma empresa de consórcios. “Antigamente, eu fazia um trabalho de seis horas diárias, com um abastecimento (combustível) de R$ 50 a R$ 70. Fazia de R$ 250 a R$ 300 por dia”, lembra.

Vieram os aumentos – da gasolina e da carga de trabalho. Antes da pandemia, já abastecia R$ 100 e trabalhava 12 horas por dia para conseguir o mesmo valor. Hoje, tem gastado R$ 170 com a gasolina. “Eu nem abasteço com álcool, porque não compensa. Tem lugar que já está de R$ 5,50 também. Hoje, consigo fazer R$ 450, mas ao longo de três dias. O combustível é responsável por 40% do nosso faturamento”, diz ele, que agora faz o curso para ser corretor de imóveis.

Também tendo entrado nos aplicativos em 2017, o motorista Márcio Fred Peixoto, 41, planeja fazer a transição total para os serviços de transfer turísticos e city tour. Antes da pandemia, ele já trabalhava para uma empresa da área, mas os serviços só começaram a retornar há pouco mais de dois meses.

“Com esse aumento de combustível, ficou inviável. Hoje em dia eu tenho uma carteira de clientes particulares que me salva, porque o preço é diferenciado. Meu carro é a gás e, na pandemia, chegou a custar R$ 1,99. Hoje está a R$ 3,89. Como uma coisa consegue aumentar quase 100% e o preço do nosso serviço não?”, desabafa.

Situação deve se arrastar até 2022, dizem especialistas

A avaliação de todos os economistas ouvidos pela reportagem é de que a tendência é que essa situação se arraste não apenas até o fim do ano, mas também ao longo de 2022. “Sou pessimista porque ainda vejo que deve ter um acirramento político muito grande, com o país polarizado. Isso só prejudica”, diz o economista Alex Gama, professor da Unifacs.

O economista Denilson Lima, da SEI, também não vê um caminho muito diferente. Para o dólar cair, por exemplo, seria necessário ter estabilidade e segurança.

“Na atual conjuntura política do Brasil, você consegue ver estabilidade? Temos embates políticos o tempo todo e você nunca sabe o que vai acontecer amanhã. A gente está com a previsão de um setembro agitadíssimo, mas quem está agitando o país não sou eu ou você”, critica.

Por ser uma operação de risco, até declarações de autoridades têm grande poder de influenciar o curso da economia. “Não tem como a Petrobras controlar taxa de câmbio. É o mercado quem vai dizer qual vai ser o valor do dólar”, reforça Lima.

Além disso, entre as despesas administradas, pelo menos uma está garantida até novembro: o aumento da energia elétrica. Com a chamada bandeira vermelha, o custo de energia é mais caro porque as usinas termelétricas foram ligadas. Ao contrário das hidrelétricas, elas produzem energia a partir de carvão, gás natural ou óleo e, por isso, são mais caras. Elas devem continuar ligadas nos próximos meses.

“Sem contar que as bandeiras já acabam ficando amarelas ou vermelhas no verão”, alerta a supervisora de informações do IBGE, Mariana Viveiros.

Neste momento, especialistas apontam que o Brasil corre sérios riscos de enfrentar um  racionamento de energia. O Operador Nacional do Sistema (ONS) informou na última quinta-feira (26) que os recursos disponíveis não são suficientes para os gastos previstos a partir de outubro.

Fonte: Correio24horas

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