Bolsonaro mira longe ao atirar contra Mandetta, apontam cientistas políticos

Os ataques do presidente Jair Bolsonaro contra o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, sinalizam muito mais do que diferentes concepções em relação à crise do coronavírus, apontam cientistas políticos ouvidos por A TARDE. Entre as possíveis motivações do chefe do Palácio do Planalto, ao radicalizar cada vez mais e “esticar a corda”, estariam o desejo de forçar um impeachment, a busca por um cenário para implementar um governo autoritário ou mesmo a preocupação em “fritar” eventuais lideranças.

Para Paulo Fábio Dantas, professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), há duas hipóteses principais “verossímeis e não excludentes entre si”. “A primeira é a hipótese psicanalítica de que o presidente, sentindo que não tem condições pessoais de gerir a crise, esteja criando uma situação para ser afastado. […] A segunda hipótese é mais política. Diante da pandemia, o presidente estaria apostando ainda mais num caos social como atalho para governar autoritariamente, sem mais cumprir os procedimentos constitucionais, especialmente na relação com o Legislativo e o Judiciário”, aponta.

No caso da primeira hipótese, ao forçar um impeachment, Bolsonaro poderia “tomar emprestada uma roupa populista de vítima de golpe para, mais adiante, na hora de se contar o total de mortos da epidemia e das vítimas da depressão econômica, apontar o dedo acusador para quem tenha enfrentado o desafio e tentar convencer que teria feito melhor”, acrescenta o professor.

No segundo cenário, pontua Dantas, ao sabotar a política de combate à epidemia traçada pelo Ministério da Saúde, o presidente buscaria “instigar o povo ao tumulto, para dividir seu próprio governo e se vacinar contra os efeitos da provável crise humanitária e da inevitável crise econômica”, o que justificaria “uma solução autoritária e também populista como via de salvação”.

Na avaliação de Cláudio André de Souza, professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), ao criticar publicamente Mandetta, Bolsonaro age sob uma “perspetiva eleitoral”. “Toda vez que ele [Bolsonaro] se sente ameaçado por alguma liderança em relação a 2022, age de forma beligerante, com fritura ou críticas. Toda vez que alguém ganha uma projeção política, ele ataca”, diz o cientista político, ao lembrar episódios anteriores, como, por exemplo, críticas feitas ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.

Além disso, o chefe do Palácio do Planalto teria o entendimento, de acordo com o professor, de que o seu “grande trunfo” para buscar a reeleição seria a economia, atingida fortemente pela pandemia. “Isso o levou a entrar em rota de colisão com Mandetta e outros auxiliares”, afirma.

Cláudio André destaca ainda a existência de um método na postura adotada por Bolsonaro. “Parece que o presidente e seus filhos reconhecem que não é necessário haver alianças, e entendem que as redes sociais são a principal forma de agregar. Essa fritura tem uma estratégia, não é irracional”, defende.

Na corda bamba há semanas, e fortemente ameaçado de demissão na última segunda-feira, 6, Mandetta só teria permanecido no cargo pela atuação de um “núcleo duro” formado por militares. Um grupo que, conforme o professor de Ciência Política Jorge Almeida, da Ufba, tem atuação de destaque na política brasileira pelo menos desde o segundo mandato do governo Dilma.

“De fato, já existe uma tutela militar no Brasil desde o segundo mandato de Dilma, quando começou a crise. Não se toma nenhuma decisão estratégica sem algum grau de apoio dos militares. No governo Temer, também foi assim. E Bolsonaro já vem sendo tutelado desde o começo do governo”, diz.

Além dos militares, limitariam a atuação de Bolsonaro o Congresso e os “grandes capitalistas”, opina Almeida. “Ele está perdendo base no que a gente chama de bloco do poder, e criando muitas dificuldades, inclusive para o grande capital no Brasil. O grande capital quer estabilidade. […]Bolsonaro atrapalha isso, e também as relações com a China, maior comprador do Brasil em áreas como o agronegócio”, exemplifica.

Sobre a perda de apoio de setores que estiveram ao lado de Bolsonaro na eleição, o professor acredita que, atualmente, as igrejas neo-pentecostais sejam o maior sustentáculo do presidente, além de “uma miríade de pequenos grupos de extrema-direita”.

Ainda segundo Almeida, ao atacar o ministro da Saúde, Bolsonaro vem transformando alguém que “nunca teve grande peso político” em um “falso herói”. “Ele não é um defensor do SUS. É o cara dos planos de saúde, que entrou para privatizar o SUS. Não sei o que vai acontecer, mas isso não é muito importante. O que Mandetta vai almejar, não dá para saber”, opina.

Dantas, no entanto, tem outro entendimento sobre as consequências que os atuais acontecimentos podem ter para a carreira do atual ministro. “Embora a esquerda política não o ataque e os governadores de esquerda cooperem, quem visita as redes sociais e lê a mídia alternativa de esquerda sabe que nesses espaços se trabalha há semanas o desgaste da imagem do ministro. Sem falar no incômodo que sua ascensão desperta naturalmente em que tem planos eleitorais para 2022”, aponta.

“Não quero dizer que ele deve ser candidato a isso ou aquilo. Quero dizer que ele sinaliza algo de que o Brasil e sua política se ressentem muito. Compromisso pessoal com uma missão pública, aliando firmeza de convicções bem informadas e realismo para entender que essa missão ‘técnica’ só pode ser bem cumprida através de paciente construção de consensos políticos. Claro que, como tudo em política, isso pode mudar, ou não se confirmar. Mas a meu ver é essa a sinalização”, finaliza.

 

Fonte: Jornal A Tarde

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