Começa a Flip 2020, pela primeira vez em formato virtual

Flip: Feira Literária de Paraty

Festa Literária Internacional de Paraty vai até domingo (6).

A 18ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) começa hoje (3), pela primeira vez em formato virtual. Em entrevista à Agência Brasil, o diretor artístico do evento, Mauro Munhoz, disse que a principal peculiaridade desta edição é considerar o digital como um espaço de arte. “Nós temos uma Flip com todo o cuidado videográfico de qualidade de cinema”.

Com esse objetivo, o diretor de cinema Marcelo Machado vai coordenar toda a videografia dessa experiência. “Para entender que o nosso objeto é a literatura, é a arte e o espaço público, a presença do espírito da Flip e de Paraty”, disse Munhoz.

Para isso, algumas mesas e cenas foram gravadas em Paraty, cidade histórica localizada na Costa Verde do estado do Rio de Janeiro e que sedia a Flip desde 1993. Segundo Munhoz, a intenção é que o público, que participará até o próximo domingo (6) das atrações da Flip de forma inteiramente gratuita, possa ter uma experiência tão rica como se estivesse em Paraty.

foto de arquivo: Bell Puã, Djamila Ribeiro e Selva Almada participam da mesa Amada vida na Flip 2018. (Walter Craveiro/Agência Brasil)

Tradições – A cultura e as tradições de Paraty também serão mostradas durante o evento. O diretor artístico da Flip explicou que desde 1993, e a própria Flip sempre foi essa expressão”. Mauro Munhoz lembrou que nos anos de 1960 e 1970, o pessoal do teatro, cinema novo, artes plásticas e literatura passou por Paraty de maneira intensa. Foi o caso dos atores Paulo Autran e Maria Della Costa, que tiveram casas na cidade, e da artista plástica Djanira, por exemplo. “Isso gerou uma cultura local muito singular. A Flip viu essa potência e o próprio desenho da feira se relaciona com isso. E agora, que a gente tem que fazer a Flip no virtual, não podia ser diferente”.

Artistas, artesãos, poetas e autores locais ou que vivem na cidade vão contar um pouco de sua própria história e de sua relação com a Flip, além de lerem trechos das obras dos escritores convidados. Entre eles, estão o educador do Instituto Náutico de Paraty, Gibrail Rameck Júnior; a cacique da aldeia Itaxim Guarani M’Biá, Eva Jerá-Mirim; o fundador do Teatro Espaço, tradicional teatro de bonecos de Paraty, Marcos Caetano Ribas; Claudia Ribeiro, educadora e integrante do grupo As Yagbás; Dalcir Ramiro, ceramista; Daniele Elias dos Santos, liderança do Quilombo do Campinho, entre outros. “Todas essas pessoas vão estar muito presentes nesta edição da Flip virtual”, assegurou Munhoz.

Convidados – Segundo Mauro Munhoz, coisas interessantes vão ocorrer, envolvendo convidados nacionais e estrangeiros. Na mesa do escritor nigeriano Chigozie Obioma com o brasileiro Itamar Vieira Júnior, que acabou de ganhar o Prêmio Jabuti, o público poderá conferir os pontos de conexão da ancestralidade cultural que acontecem na Nigéria e no Brasil. ”Vai ser uma coisa riquíssima!”, disse.

Também na abertura da Flip, que reunirá a escritora inglesa Bernardine Evaristo com a escritora brasileira Stephanie Borges, a mesa Diásporas chama a atenção. Bernardine falará sobre seu livro Garota, mulher, outras, que venceu a última edição do Booker Prize, tornando-se a primeira autora negra a receber a premiação. O livro retrata 12 personagens mulheres que, juntas, compõem um retrato histórico que passa das colônias britânicas do Caribe à África, e também um retrato contemporâneo da população negra na Grã-Bretanha.

O sobrenome Evaristo, da autora internacional, lembra o da escritora brasileira Conceição Evaristo. “Um sobrenome de origem brasileira deu a volta pela África, passou pela Inglaterra e hoje vem à Flip. São coisas muito interessantes neste momento onde nós estamos redefinindo nossas identidades, a questão da diversidade. Vai ser uma experiência muito rica”, observou o diretor.

Curadoria – Mauro Munhoz negou que a Flip 2020 não tenha curadoria. Fernanda Diamante foi curadora do evento até agosto deste ano, quando pediu para se desligar por motivos pessoais. Até antes da pandemia do novo coronavírus, a organização do evento já tinha enviado muitos convites para autores nacionais e estrangeiros. “Foram convites enviados pela Flip, sob a curadoria da Fernanda Diamante”. Após a saída dela, a Flip entrou em contato com os escritores e todos disseram estar muito animados para participar da Flip virtual, afirmou Munhoz. “A programação é, em grande parte, curadoria da Fernanda Diamante”.

Campanha – Munhoz destacou que a Flip é também o momento de definir como os projetos culturais têm de ser estruturados a partir de agora. Foi lançada uma ação institucional para sensibilizar o público em geral para apoiar a cultura. Dentro do movimento mais geral de doação do Brasil, foi criada a campanha “Abrace a Cultura, apoie a Flip”.

No site www.flip.org.br, há uma série de informações sobre a campanha. Munhoz disse que está impressionado com a adesão ao evento. “São doações de pequenos valores, mas que estão colaborando com a feira. Eu gostaria de convocar mais pessoas a poder fazer com que projetos como a Flip continuem a existir neste mundo tão diferente e tão desafiador que está se apresentando pra gente”.

Programação – A programação será totalmente livre e gratuita e pode ser acompanhada no site www.flip.org.br, no YouTube/flipfestaliteraria e nas redes sociais. A festa é composta por mesas transmitidas ao vivo e vídeos gravados antecipadamente, com convidados internacionais e autores nacionais, além de artistas e escritores de Paraty.

Além da mesa de abertura Diásporas, às 18h desta quinta-feira (3), envolvendo Bernardine Evaristo e Stephanie Borges, está programada, às 20h30, a mesa Zé Kleber: Ciranda, com os músicos cirandeiros paratyenses Fernando e Marcello Alcantara, que se dedicam a resgatar e colocar em evidência a cultura caiçara em suas mais diferentes formas.

Nesta sexta-feira (4), às 16h, o público poderá conferir a mesa Florestas, com o escritor morte-americano Jonathan Safran Foer e a escritora brasileira Márcia Kambeba, que discutirão os impactos da ação humana sobre o clima e a importância da natureza para a educação indígena, sob mediação da jornalista Jennifer Ann Thomas, especializada em meio ambiente.

Às 18h, na mesa Elieen para presidente!, a autora Eileen Myles, de Chelsea Girls, se encontra com suas tradutoras brasileiras Bruna Beber e Mariana Ruggieri e fala sobre a trajetória como poeta, performer, romancista e jornalista. Às 20h30, será realizada a mesa Animais abatidos, com as escritoras Pilar Quintana e Ana Paula Maia. As duas romancistas sul-americanas, uma colombiana e outra brasileira, falam sobre seus personagens que vivem em contextos ordinários, mas que acabam se defrontando com aspectos absurdos da vida.

Caetano Veloso – No sábado (5), a mesa das 16h abordará o autoritarismo, com a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, que vai refletir sobre as raízes do autoritarismo brasileiro. Segue-se, às 18h, a mesa Ancestralidades, com o nigeriano Chigozie Obioma e o brasileiro Itamar Vieira Júnior. Os dois romancistas debatem a vida rural de personagens que vivem às voltas com religiões de matriz africana.

Encerrando o dia, às 20h30, está programada a mesa Transições, com o músico e compositor brasileiro Caetano Veloso e o filósofo espanhol Paul B. Preciado. O tema central é a liberdade.

No domingo (6), último dia da Flip, a mesa Zé Kleber: Sarau, às 14h, traz Elisa Pereira, idealizadora do Fuzuê Literário – Sarau de Paraty, em conversa com Rodrigo Ciríaco, escritor e educador de São Paulo que a inspirou a começar o movimento na cidade. Eles conversam sobre como os saraus artísticos se multiplicaram pelas periferias da cidade de São Paulo e ganharam a cena cultural do país.

Às 16h, ocorrerá a mesa Batidas, da qual participarão a escritora Regina Porter, dos Estados Unidos, e o brasileiro Jeferson Tenório. Eles abordarão questões que aproximam seus trabalhos recentes. No pano de fundo dos dois romances estão vida familiar, paternidade, racismo e desigualdade. Às 18h, será a vez da mesa Vocigrafias insurgentes. Nela, os artistas Jota Mombaça e Danez Smith, do Brasil e dos Estados Unidos, tratam mais da história comum que compartilham do que das fronteiras que os separam.

Às 20h30, a mesa que encerrará as apresentações da Flip 2020 será Zé Kleber: Slam. Nela, será registrado o encontro entre Nathalia Leal, uma das idealizadoras do Slam de Quinta, que acontece toda quinta-feira na rodoviária de Paraty, e Luz Ribeiro, primeira mulher a vencer o Slam BR – campeonato brasileiro de Slam. Slam, ou ou Poetry Slams, pode ser definido como batalha de poesia falada.

Apoio – A Flip Virtual 2020 conta com o patrocínio do Ministério do Turismo, por meio da Secretaria Especial de Cultura, da Lei Federal de Incentivo à Cultura, tem patrocínio oficial do Itaú e o apoio da Prefeitura de Paraty, da Pinheiro Neto Advogados e do Uol.

 

Fonte: Revista Exame

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