Como a crise vai afetar a Bolsa? Gestores reduzem em até 20% projeções para Ibovespa

Analistas já veem índice de ações brasileiro em 120 mil pontos no fim do ano

Inflação elevada, juros altos, risco fiscal, turbulência política e crise hídrica: esses são alguns dos fatores que levaram o mercado financeiro a reduzir suas projeções para o Ibovespa no fim do ano. Das estimativas acima de 140 mil pontos, agora se fala em 130 mil e há até quem preveja 120 mil.

Na quarta-feira, a equipe de análise do Itaú BBA cortou sua estimativa de 152 mil para 120 mil pontos. Essa redução de 21% foi influenciada pela perspectiva de menor lucro por ação das empresas que compõe o Ibovespa, que passou de 9,25% para 5%, devido ao avanço da inflação e da alta da taxa básica de juros (Selic).

‘Passar a eleição’

Em relatório, os analistas Marcelo Sá e Matheus Marques destacam que os riscos fiscais têm aumentado, com o governo buscando o teto de gastos (que limita o aumento de despesas da União à inflação do ano anterior) com o pagamento de precatórios e o desejo de turbinar o Bolsa Família, de olho nas eleições de 2022.

“A deterioração das perspectivas macro, associada à volatilidade política, tornou os investidores menos inclinados a aumentar a exposição ao Brasil”, escreveram.

E não foi só o Itaú BBA. No início do mês, a Órama alterou sua projeção de 134 mil para 130 mil pontos. Segundo o economista-chefe da gestora, Alexandre Espirito Santo, pesaram fatores internos, como a indefinição sobre os precatórios e o andamento das reformas:

— São dúvidas que deixaram o mercado ressabiado, com razão, e levaram muitos investidores a reduzirem exposição em Bolsa. A crise entre os Poderes dificulta soluções, como na questão dos precatórios.

Na RB Investimentos, o corte foi de 138 mil para 130 mil pontos. Influenciaram, explica o estrategista da gestora, Gustavo Cruz, a falta de avanço na agenda de reformas, a tendência de alta da Selic (que torna a renda variável menos atraente) e a antecipação do debate eleitoral.

— Mesmo com a reabertura da economia, temos a discussão eleitoral e menos espaço para aprovar certas medidas — diz Cruz. — Alguns clientes falam que preferem esperar passar a eleição para se posicionar em renda variável.

Mais fatores de risco

No início de setembro, o BB Investimentos reduziu sua estimativa para o Ibovespa de 140 mil para 130 mil pontos. Já a XP cortou, em agosto, sua projeção de 145 mil para 135 mil pontos. Também em agosto, a Guide Investimentos revisou sua previsão de 135 mil para 125 mil pontos.

Já a Genial Investimentos deve alterar sua projeção, atualmente em 135 mil pontos, na semana que vem — quando se espera uma alta de 1 ponto percentual na Selic, para 6,25%. A deterioração das condições internas, tanto as econômicas quanto as institucionais, é o principal motivo para a revisão, segundo o estrategista da gestora, Filipe Villegas:

— O fator político e a dificuldade de se prever Brasil aumentaram os fatores de risco. Os eventos adversos hoje estão mais imprevisíveis do que no começo do ano.

Santander e Banco Inter devem revisar suas estimativas, mas sem data definida.

No Bradesco BBI, a estimativa de 135 mil pontos estabelecida em maio ainda está mantida. A Ativa também não alterou os 138 mil pontos estipulados após a temporada de resultados das empresas referente ao 1º trimestre.

Com isso, os investidores já começam a olhar novamente para a renda fixa, especialmente as pessoas físicas, que entraram de forma expressiva na Bolsa em 2020 em busca de maior rentabilidade.

Mesmo com as revisões, os números ainda indicam que o Ibovespa terá certa valorização frente ao patamar atual.

Espirito Santo, da Órama afirma que as empresas brasileiras estão conseguindo bons resultados e que algumas ficaram relativamente baratas, olhando para o longo prazo.

No entanto, ele ressalta que fatores externos ainda podem atrapalhar o Ibovespa, principalmente com as sinalizações da retirada de estímulos nos Estados Unidos e na Europa.

Para quem quer persistir na Bolsa, há opções. Cruz, da RB, vê potencial nos papéis ligados à retomada econômica, como os de empresas de turismo e aéreas. E ressalta que os investidores devem observar como as companhias reagem ao cenário de juros maiores e crise hídrica.

Bancos e seguradoras, por exemplo, beneficiam-se de juros mais altos, enquanto varejistas tendem a sofrer com o crédito mais caro. Já companhias que consomem muita energia verão a conta de luz comer seus ganhos.

No caso do Itaú BBA, os riscos associados à crise hídrica levaram a um ajuste do portfólio. Foram removidas companhias de crescimento elevado e incluídas aquelas mais defensivas, como Energisa, Eneva e Weg.

Fonte: O Globo

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