Eleições americanas: como fica a Bolsa?

Biden X Trump

De impostos a comércio internacional, veja as principais diferenças dos planos dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos.

Donald Trump e Joe Biden discordam em praticamente tudo, e isso certamente é verdade no caso das ideias sobre a economia. Quem quer que vença a eleição de 3 de novembro vai assumir um país em crise profunda.

A recessão causada pela pandemia é uma das mais graves da história. Estima-se uma contração de 4% no PIB deste ano – um dado mais promissor que as previsões catastrofistas de alguns meses atrás, mas ainda assim preocupante. Milhões estão desempregados e, com a pandemia ainda fora de controle, ninguém sabe quando a atividade econômica vai voltar aos níveis do ano passado.

Os planos de Trump, republicano, e Joe Biden, democrata, para trazer a economia americana de volta à superfície são muito diferentes. Bem, o programa de governo de Biden é conhecido. Trump não divulgou um plano detalhado do que pretende fazer, então analistas concluem que o presidente pretenda repetir a mesma receita do primeiro mandato: cortar impostos e reduzir (um pouco) os gastos do governo.

Impostos – Biden quer aumentar a taxação dos mais ricos. Ele argumenta que os cortes promovidos por Trump beneficiaram somente o topo da pirâmide. “Este é o momento de imaginar e criar uma economia em que todo americano tenha chances iguais de prosperar”, afirma o ex-vice-presidente.

O plano de Biden também prevê aumento no imposto de renda das empresas: a alíquota passaria dos atuais 21% para 28%. Trump, que promete não mexer na taxação das pessoas jurídicas, afirma que essa medida contribuiria para um colapso da economia e da Bolsa de Valores.

Mas os economistas pintam um quadro menos aterrorizante. “Primeiro, temos de levar em conta que esse patamar de 28% já contava com apoio dos próprios republicanos antes do corte promovido por Trump”, diz Richard Prisinzano, diretor do Wharton Budget Model, um centro de estudos da Universidade da Pensilvânia.

Donald Trump não apresentou um plano detalhado do que pretender fazer em um eventual segundo mandato. Em seu site, há apenas a seguinte frase: “Cortar impostos para aumentar o dinheiro recebido pelos trabalhadores e manter empregos nos Estados Unidos”.

Empregos – O aumento de arrecadação proposto por Biden será necessário se ele quiser implementar um ambicioso plano de investimentos governamentais, a base para sua promessa de gerar empregos.

O programa de governo democrata fala em investimentos de 7,3 trilhões de dólares ao longo dos próximos dez anos, que vão de infraestrutura a educação e ampliação da concessão de benefícios. O aumento de impostos previsto cobre pouco mais da metade dessa conta, mas os analistas acreditam que os potenciais efeitos negativos da taxação extra serão compensados de outras maneiras.

“Não estamos falando simplesmente de aumentar o tamanho do governo”, diz a EXAME Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics e co-autor de um relatório que avaliou os planos de Biden e Trump. “Estamos falando aumentar o tamanho do governo em uma situação de crise, com desemprego, juros zero e baixa inflação. Nesse contexto, faz sentido um plano fiscal agressivo de investimentos.”

Mas essa agenda só vai virar realidade se os democratas obtiverem o controle do Senado. Caso isso aconteça e Biden consiga aprovar seu plano na íntegra, seriam criados 7 milhões de empregos a mais em comparação com um segundo mandato de Trump (com uma maioria de senadores republicanos), de acordo com os cálculos da Moody’s Analytics.

Trump havia prometido um pacote de investimentos em infraestrutura de 1 trilhão de dólares em seu primeiro mandato, mas nunca o apresentou. O site de sua campanha fala apenas em criar 10 milhões de empregos em 10 anos e 1 milhão de novos pequenos negócios, sem detalhar como isso seria feito.

Trump também quer impedir que empresas que terceirizem sua produção para a China forneçam para o governo, além de oferecer créditos para companhias que tragam empregos de volta para o país.

Economia verde – O objetivo declarado da campanha Biden é ter uma economia neutra em emissões de gases causadores do efeito estufa em meados da próxima década. Isso se conquistaria a um custo estimado em 2 trilhões de dólares, que incluem recursos para inovação, instalação de estações de recarga de carros elétricos e endurecimento das regulamentações ambientais de setores poluentes.

Donald Trump é famosamente cético em relação à ciência e reverteu dezenas de decisões de seus antecessores que protegiam o meio ambiente. No último debate da campanha, Trump acusou o democrata de querer “destruir a indústria petrolífera”.

Comércio internacional – A máxima de que os republicanos são mais favoráveis ao livre comércio – e portanto melhores do ponto de vista das empresas brasileiras – já provou não ser verdadeira com a cooptação do Partido Republicano pelo populismo nacionalista de Trump.

Do lado dos democratas, Biden também vem fazendo uma campanha baseada em privilegiar a produção nacional. “Não acho que nenhum dos dois candidatos seja particularmente pró livre comércio”, diz Brian Winter, editor da revista Americas Quarterly e vice-presidente de políticas da Americas Society/Council of the Americas. Mas Winter considera um cenário mais favorável para o Brasil nas negociações comerciais com os Estados Unidos. “Os diplomatas dos dois países afirmam que haverá um grande esforço. Sou cético, mas veremos.”

China – Também não se espera uma distensão entre americanos e chineses. Apesar das acusações mútuas de subserviência à China, os dois candidatos olham para a potência asiática com muita desconfiança. Trump forçou a venda da operação americana do aplicativo TikTok para uma companhia do país e não vai recuar na guerra comercial com a China.

Biden vai evitar caracterizar a queda-de-braço em termos ideológicos. Seu principal assessor no assunto, Ely Ratner, escreveu num artigo recente que, do ponto de vista econômico, prometer o fim da simbiose das duas economias não é realista — a estratégia deve ter como objetivo ganhar competitividade internamente e aceitar uma realidade geopolítica muito diferente da dos tempos da Guerra Fria.

O democrata defende uma coalizão internacional para pressionar os chineses em temas como proteção da propriedade intelectual e transferência de tecnologias.

 

Fonte: Revista Exame

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