Manaus foi centro da experimentação de medidas médicas

Manaus não pode ser esquecida. A CPI é a oportunidade de começarmos um trabalho de memorização sobre um período que tem tudo para ser lembrado como o mais mortal da história de nosso país. Os senadores precisam estar conscientes do peso histórico que carregam em seu trabalho.

Desde 2018 ouvimos comparações do Brasil de hoje com o Terceiro Reich. Em que pese o fato de ambos os momentos terem tido governos de grandes lideranças carismáticas da extrema-direita, existem certamente mais diferenças do que semelhanças. O governo de Hitler durou 12 anos, o de Bolsonaro ainda não completou três. Nosso presidente já sugeriu estar à direita de Hitler. No entanto, uma dúvida deve ser esclarecida: existiria aproximação pertinente entre o bolsonarismo e aquilo que houve de mais grave no nazismo, a eugenia? Termo cunhado pelo cientista britânico Francis Galton, eugenia significa “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente”. Políticas eugênicas são, portanto, um processo de seleção artificial de populações, que pode implicar ou não no extermínio de populações específicas — um genocídio.

Os campos de concentração e de extermínio são a face mais aterrorizante do projeto de eugenia social empreendido pelo governo do Führer, e cabe ressaltar, talvez não por acaso, que foram palco de importantes experimentos médicos. São famosos os ensaios do médico Josef Mengele, que passou boa parte da vida abrigado em nossas terras durante o regime militar até morrer de maneira suspeita em 1979, ano do início do processo de abertura política.

Experimentos de médicos – Se Auschwitz passou para a história como a maior ilustração de horror daqueles tempos, nunca é demais relembrar Dachau e os experimentos de médicos nazistas feitos naquele campo. Dentre os vários de que se tem registro, vale ressaltar aqui um que ocorreu entre 1942 e 1945: a busca pela imunização contra a malária. Mais de mil detentos foram propositalmente infectados pelo mosquito ou por injeções de extratos de mosquitos infectados. Uma vez contraída a doença, foram testados diversos fármacos a fim de confirmar a eficácia dos tratamentos. Mais da metade dos detentos morreu. Ou para usar os termos de alguns senadores governistas hoje em dia: quase 50% foram salvos da malária por aqueles “tratamentos”.

Como o próprio deputado Osmar Terra (MDB-RS) afirmou, Manaus teve uma redução nas mortes e nos contágios durante vários meses, o que para muitos cientistas parecia ser um indício de que se havia chegado a uma “imunidade de rebanho”. Um estudo publicado na “Science” apontou que cerca de 76% da população de Manaus tinha desenvolvido anticorpos contra o Sars-Cov-2, o que, a princípio, estaria acima do limiar considerado necessário. Ainda assim, tivemos uma segunda onda devastadora na cidade.

Quando essa onda ainda iniciava, o governo do estado do Amazonas, alinhado ideologicamente com o governo federal, decidiu implementar restrições de circulação. A manifestação de deputados federais bolsonaristas, do próprio presidente e uma verdadeira mobilização de seguidores pressionou o governador, que acabou cancelando as medidas sanitárias. Em paralelo, o Ministério da Saúde incentivou fortemente a estratégia de tratamento precoce, aplicando fármacos de eficácia então não comprovada. Por fim, faltou oxigênio nos hospitais lotados, e nossa política externa relutou em aceitar o oxigênio vindo da Venezuela, por questões ideológicas. Manaus foi o centro da experimentação de algumas medidas médicas: tratamento com fármacos, estímulo ao auto-contágio como forma de imunização da população e tratamentos clínicos sem uso de oxigênio para resolver problemas de uma doença respiratória.

O mais provável é que Manaus tenha sido vítima das várias incompetências do governo federal em um espaço curto de tempo. Mas existe a possibilidade de que não tenha sido apenas incompetência, pode ter havido uma estratégia de eugenia social — e isso deve ser apurado. Um levantamento recente do Cedepisa-USP e da Conectas apresentou uma análise rigorosa dos decretos, declarações e discursos do governo federal. O material sugere ter havido intencionalidade na propagação do vírus.

Inépcia ou intenção – É urgente entender se Manaus é o resultado de incompetência — o que já seria grave — ou se houve intencionalidade. Em última análise, entender se foi ou não um autêntico projeto de eugenia.

Todos os sócios do projeto de eugenia nazista foram devidamente responsabilizados, inclusive a comunidade médica. Parte dela foi sócia e devidamente julgada pelos abusos cometidos. Foi a partir do julgamento dos médicos que se desenvolveu o código de ética médica de Nuremberg.

 

Fonte: Jornal O Globo

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