Morre em Paris o cineasta argentino Fernando Solanas, aos 84 anos

Fernando “Pino” Solanas, cineasta e ativista argentino - © AFP/Archivos

Fernando “Pino” Solanas, cineasta e ativista argentino, morreu aos 84 anos em Paris, dias depois de ser internado em um hospital por coronavírus. A informação foi divulgada neste sábado (7) pelo Ministério das Relações Exteriores da Argentina.

“Sentimos uma enorme dor por Pino [como era conhecido pelos próximo] Solanas. Ele morreu enquanto cumpria suas obrigações como embaixador da Argentina na Unesco”, escreveu a chancelaria noTwitter. “Ele será lembrado por sua arte, por seu compromisso político e por sua ética, sempre a serviço de um país melhor”, acrescentou.

Solanas dirigiu “O exílio de Gardel (Tangos)”, de 1985, premiado no Festival de Veneza. Em 1988, ele recebeu o prêmio de melhor diretor no festival francês de Cannes por seu longa “Sul”. Já em 2004, Solanas foi homenageado com um Urso de Ouro honorário por sua carreira, no Festival de Cinema de Berlim.

Solanas havia anunciado no Twitter, no dia 16 de outubro, que ele e sua esposa, Ángela Correa, haviam contraído a Covid-19 na capital francesa, onde se encontra a sede da Unesco. Ele estava internado em observação. Na imagem que acompanhava a mensagem, o cineasta aparecia em um leito de hospital e com máscara. Cinco dias depois, o diretor premiado afirmou que o seu estado era “delicado”, mas que ainda “resistia”. Foi sua última mensagem na rede social.

Engajamento em causas sociais – Solanas foi um cineasta comprometido, revolucionário e prolífico e também um político apaixonado e perseverante.

Em 1992, foi eleito senador pela cidade de Buenos Aires e um ano depois foi deputado pela Frente Grande. Também foi candidato à presidência em 2007 pelo movimento Projeto Sul, progressista, ambientalista e de centro-esquerda, em aliança com o Partido Socialista Autêntico. Em junho de 2019, anunciou que ingressaria na Frente de Todos e endossou a chapa presidencial de Alberto Fernández Kirchner e Cristina Fernández Kirchner.

Nascido em 16 de fevereiro de 1936 em Buenos Aires, Solanas estreou no cinema em 1962, com o curta “Seguir andando”. Em 1967, dirigiu o documentário “La Hora de los Hornos”, trilogia co-dirigida com Octavio Getino, com duração de mais de quatro horas, que se tornou um símbolo do cinema politicamente comprometido, de denúncia e resistência à ditadura.

Solanas dirigiu também, entre outros, “Perón: Actualización política y doctrinaria para la toma del poder”, entrevista com Juan Domingo Perón, que se tornou um documento reverenciado pelos jovens peronistas da época.

Seu documentário “Memoria del saqueo”, sobre a precária condição social e econômica da Argentina, foi apresentado no Festival de Cinema de Berlim em 2004, mesmo ano em que Solanas recebeu o Urso de Ouro honorário em reconhecimento à sua carreira.

O realizador é co-autor do manifesto “Hacia un Tercer Cine”, movimento latino-americano que surgiu na década de 1960, em oposição a uma linguagem cinematográfica dominante, comercial e ditada principalmente pelos Estados Unidos.

“A luta anti-imperialista dos povos do Terceiro Mundo, e dos seus equivalentes nas metrópoles, constitui hoje o eixo da revolução mundial. O Terceiro Cinema é para nós aquele que reconhece nessa luta a mais gigantesca manifestação cultural, científica e artística do nosso tempo, a grande possibilidade de construção por cada povo de uma personalidade libertada: a descolonização da cultura”, afirmavam Solanas e Octavio Getino, co-signatários deste manifesto.

Defesa do meio ambiente e do direito ao aborto – No início de outubro, Solanas se encontrou com o papa Francisco no Vaticano, uma de suas últimas atividades públicas, para discutir projetos de luta “contra as mudanças climáticas e os direitos da Mãe Terra”, segundo o próprio Solanas no Twitter.

Sua morte vem gerando mensagens de condolências nos círculos políticos e culturais. Muitos se lembraram do discurso que proferiu em 2018, como senador, quando um projeto de lei sobre o aborto foi rejeitado pela Câmara alta após uma histórica mobilização feminista nas ruas do país.

“Vamos acabar com a hipocrisia de uma classe dominante de que sabendo que as mais ricas podem fazer abortos seguros, deixam as menos ricas condenadas à infecção ou à morte”, disse Solanas na época.

“Bravo meninas, vocês elevaram a honra e a dignidade da mulher argentina. Se não sair hoje, no ano que vem vamos insistir. E se não sair no ano que vem, vamos insistir no outro. Ninguém vai conseguir parar a onda da nova geração”, disse ele.

 

Fonte: Microsoft News – msn (Com informações da AFP)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here