Nem Salvador Dalí daria conta do Brasil de 2020

Praia de Ipanema lotada no Rio de Janeiro em meio à pandemia da covid-19.FABIO MOTTA / EFE

Nestes trópicos que infelizmente voltaram a ser tão tristes, o hedonismo triunfou até mesmo sobre o mais primitivo instinto de sobrevivência.

Ao longo dos meus quase 60 anos de vida, 32 dos quais vivendo mundo afora, eu frequentemente me encontrei tentando explicar a amigos e cientistas de outros países alguns dos mais escabrosos eventos transcorridos na história recente do nosso querido patropi, bem como a inaudita reação dos brasileiros a cada um destes acontecimentos tenebrosos da vida nacional. A lista destes descalabros verde-amarelos, e dos meus correspondentes insucesso em explica-los, é longa e, como dizia a minha professora de português favorita, “epicamente trágica e, como tal, praticamente inenarrável”. E apesar desta minha prática constante, nada nem ninguém poderia ter me preparado para o Brasil de 2020.

Como que querendo superar a qualquer custo as mais mirabolantes narrativas do realismo mágico de Miguel Astúrias e Gabriel Garcia Márquez, o Brasil de 2020 ultrapassou, por alguns milhões de anos luz, qualquer limite humanamente aceitável do surreal. A tal ponto de que mesmo Salvador Dalí, progenitor-mor do surrealismo, hesitaria em fixar residência neste que um dia foi o paraíso sem fim dos Tupiniquins, Tupy-guaranis, Tapuais e Tupinambás. Acreditem-me, Dalí não daria conta de testemunhar o que transcorreu nesta sofrida Terras Brasilis ao longo destes recém completados nove meses de uma gestação simplesmente infernal.

Não bastasse o descalabro no manejo da maior pandemia a assolar o planeta em um século, que gerou a maior perda de vidas relacionadas a um único evento em toda a história da República ― e da Monarquia também, salvo a eterna chaga da escravidão e do genocídio indígena pelos colonizadores europeus ―, a propaganda criminosa do suposto milagre de Nossa Senhora da Cloroquina, a tentativa de maquiar ou esconder os dados que demonstravam o tamanho da nossa presente catástrofe sanitária, o Brasil de 2020, literal e metaforicamente, se transformou num enorme incêndio fora de controle. Avassalador e sem limite, gerado pela ganância infinita e sem nexo e que já ameaça conduzir o país, em alguns outros poucos meses, às cinzas de um passado calcinado e estéril de onde nenhuma Fênix – ou qualquer tipo de futuro digno e soberano – será capaz de emergir.

E no meio deste pandemônio de sinistros confeccionados diuturnamente, tanto por labaredas naturais, como pelas chamas institucionalizadas do desgoverno, enquanto mil brasileiros e brasileiras morrem diariamente e aproximadamente 20% do Pantanal ― e uma fração não menos pornográfica da Amazônia ― ardem em chamas que nem Dante ousou evocar, para o espanto e revolta de todo o mundo, joga-se futebol em meio a uma pandemia fora de controle, lota-se praias e bares e, para todos os fins e propósitos, dá-se um proverbial chute nos fundilhos do dia de amanhã, em troca do sibilante e inebriante chamado de Circe em prol do prazer imediato.

Trocando em miúdos, no Brasil de 2020, nestes trópicos que infelizmente voltaram a ser tão tristes, o hedonismo, em todas as suas manifestações e mutações mais perversas, definitivamente triunfou, até mesmo sobre o mais primitivo instinto de sobrevivência. Assim, regido pelo mantra dominante deste mundo, tão pós-moderno quanto raso, que caminha a passos largos para o anti-clímax máximo da sua própria destruição, um grande número dos habitantes de Pindorama, finalmente, faz parte de alguma vanguarda: os primeiros desbravadores a darem as mãos e sorridentes, como parte de uma brainet mais do que coesa, saltarem rumo ao fundo do abismo, sem esquecer, evidentemente, de no percurso, agradecer aos céus pela dádiva de serem os pioneiros, deste derradeiro auto da fé, desta sua não tão sapiens irmandade.

 

Fonte: El País | Opinião (Por: Miguel Nicolelis)

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