O extermínio de abelhas

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Muitas vezes no jornalismo, tropeçamos com histórias quando menos esperamos. Elas podem estar no caminho de casa para o trabalho, num comercial que passou na televisão ou escondidas no meio de outra apuração.

No começo do ano, enquanto buscava informações para completar uma reportagem, topei com um site norte-americano que reportava o impacto dos agrotóxicos no país. Uma das notas falava sobre a batalha judicial para proibir inseticidas à base de Sulfoxaflor, agrotóxico apontado como responsável pela morte de enxames. Durante o inverno de 2012 e 2013, quase um terço das abelhas do país morreram, de acordo com relatório do Departamento de Agricultura americano (USDA).

Na época, a relação entre morte de enxames e o uso de agrotóxicos estava em pauta na Europa e nos Estados Unidos, e recebi a missão inédita de investigar se algo semelhante ocorria no Brasil.

Na vida animal, cada espécie tem importância na cadeia alimentar. A extinção de um grande mamífero ou de um pequeno inseto abalariam diversas espécies e até mesmo ecossistemas. E esse impacto é ainda maior quando falamos de abelhas. No ato da polinização, sem querer, elas ajudam na produção de cerca de 75% dos cultivos destinados à alimentação humana, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Se elas fossem extintas, o preço dos alimentos aumentaria e sua quantidade ficaria menor, o que geraria uma crise humanitária a nível global.

“Mas as abelhas estão realmente acabando no Brasil?”. Essa era a principal e mais difícil dúvida a ser respondida por aquela apuração. No começo de 2019, notícias e estudos acadêmicos revelavam alguns casos de mortandade em pontos distintos do Brasil. No entanto, diferente dos EUA, não temos um órgão do governo que contabilize – ou ao menos estime – quantas abelhas existem ou acabam morrendo durante um intervalo específico de tempo. Então, o principal desafio seria identificar qual era o tamanho do extermínio de abelhas, uma tarefa difícil quando se fala de um país com território continental, como o nosso.

Na época, apenas quatro estados brasileiros conseguiram contabilizar as mortes dos seus enxames. Com dados de câmaras setoriais, associações, universidades e promotorias de Ministérios Públicos, identificamos que cerca de 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas em um intervalo de três meses no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

O número é assustador — e, pior, possivelmente não corresponde a um terço do real tamanho da mortandade de abelhas no país. Isso porque contabiliza apenas quatro das 27 UFs, e também porque inclui apenas as abelhas criadas por apicultores. Ainda é impossível identificar quantas abelhas silvestres estão morrendo.

“Acaba sendo um termômetro. Quando as abelhas morrem no apiário, pode saber que lá fora, com as silvestres, está sendo igual”, me contou o apicultor Salvador Gonçalves, durante uma visita que fiz ao município onde ele nasceu e cresceu, Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul. A cidade abrigou o epicentro da crise de mortandade: 100 milhões de abelhas mortas em três meses.

Conheci Cruz Alta no banco do passageiro da caminhonete do senhor Salvador, enquanto visitávamos apicultores que pudessem nos contar suas histórias. Trata-se de um típico município do interior brasileiro. O centro da cidade cresceu em torno da prefeitura e de igrejas católicas. Ao redor ficam as casas e, nos extremos, as propriedades rurais. “Recebemos muitas ligações de pessoas que encontraram uma colmeia na frente de casa e não sabem o que fazer, aí vamos pra lá fazer a retirada segura”, diz Salvador, que é presidente da Associação dos Apicultores de Cruz Alta, a Apicruz, ligada à prefeitura.
Ele conta que as ligações foram tornando-se mais comuns. Devido aos agrotóxicos à base do inseticida Fipronil, muito utilizado nas lavouras de soja da região, as abelhas que não estão morrendo constroem suas casas no centro, tentando fugir do veneno.

Assim como grande parte dos apicultores, Salvador não tem uma lavoura própria para criar suas abelhas, e deixa seus apiários nas propriedades rurais de colegas da região — a maioria deles são produtores de soja, que utilizam Fipronil e outros venenos.

Apenas em dezembro do ano passado, Salvador perdeu 40 colmeias. “Não dá vontade de desistir não?”, pergunto a ele. “Dá muita, mas esse é meu hobbie. Tem vez que eu chego de manhãzinha e não tem uma (no apiário), passa uns cinco minutos e já tão tudo me rodeando. Grito ‘vocês não vão trabalhar não?’, e jázinho tão tudo lá trabalhando. Se chega uma pessoa estranha falando alto comigo pode se preparar que daqui a pouco elas botam ela pra correr dali”, diz.

Nove meses após visitar Cruz Alta, ainda troco mensagens com Salvador pelas redes sociais. Ele sempre me atualiza da situação da cidade. “Depois que a história de Cruz Alta pipocou lá pra cima (é como ele se refere aos outros estados brasileiros, que ficam geograficamente acima do Rio Grande do Sul) tá tendo mais fiscalização. Muito produtor de soja levando multa”, me contou por um áudio no mês passado.

O impacto da reportagem foi enorme, pois era a primeira vez que se contabilizava mortes de abelhas no país. O tema chegou na boca do povo e no ouvido dos governantes. Virou tema de projetos de lei, embalou discussões calorosas em comissões na Câmara dos Deputados e foi uma das pautas principais da recém criada Frente Parlamentar Mista da Apicultura e da Meliponicultura, que conta com 256 deputados federais e nove senadores.

Se por um lado vemos cada vez mais mobilizações na sociedade civil e até governos locais tomando medidas contra os pesticidas – revelamos nesta semana como Florianópolis se tornou o primeiro município brasileiro livre de agrotóxicos –, o que ainda está em falta é a resposta do governo federal. Nós mostramos que os inseticidas Fipronil e os neonicotinoides Clotianidina, Imidacloprid e o Tiametoxam são os principais responsáveis pelas mortes de abelhas registradas. A licença de comercialização desses produtos, no entanto, continua sendo reavaliada pelo Ibama, em um processo que já leva sete anos e ainda não tem previsão de conclusão. Além disso, em 22 de julho deste ano, seis produtos agrotóxicos inéditos à base de Sulfoxaflor obtiveram a permissão para serem comercializados no Brasil.

Entre setembro e fevereiro, com as colheitas de primavera e verão, ocorrem os maiores números de morte de abelhas no país. Sem uma solução efetiva do governo, o que nos resta agora é apenas torcer para que não ocorra outro massacre tão grande quanto o do ano passado. Infelizmente, a história tem tudo para se repetir.

 

Fonte: Pedro Grigori – Repórter na Agência Pública

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