O que offshores em paraísos fiscais têm a ver com fake news no Brasil

Na terça-feira passada, 28 de setembro, a CPI da Pandemia aprovou a convocação do empresário Otávio Fakhoury para depor no Senado, argumentando que ele seria “o maior financiador dos canais de disseminação de notícias falsas”. O anúncio causou um rebuliço na redação da Agência Pública.

O depoimento seria na quinta, mas apenas dias depois, no domingo seguinte, iríamos publicar uma matéria mostrando que Fakhoury possuía duas empresas sediadas nas Ilhas Virgens Britânicas e no Panamá, conhecidos paraísos fiscais. A descoberta veio após oito meses mergulhadas em uma base de dados de 11,9 milhões de arquivos confidenciais com informações de 14 escritórios especializados em abrir e manter offshores de todo o mundo – o maior vazamento de arquivos de paraísos fiscais da história, apelidado de Pandora Papers.

Além da Pública, participaram da investigação no Brasil a revista piauí e os sites Metrópoles e Poder 360. A iniciativa, liderada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), reuniu mais de 600 jornalistas, espalhados por 117 nações. O projeto envolveu os maiores veículos de comunicação do mundo, como o Washington Post, Le Monde, El País, The Guardian e a BBC. Só mesmo com repórteres de várias partes do globo trabalhando juntos na maior colaboração jornalística da história é possível se debruçar sobre este volume de documentos. Foram inúmeras reuniões ao longo desse período, uma oportunidade e tanto para muitas trocas e aprendizados com colegas do Brasil e do exterior.

Minutos antes de ir ao ar, o Pandora Papers já causava impacto no Paquistão e no Panamá. Por aqui, assim que a revista piauí revelou que o ministro Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, estavam na lista de donos de offshores, a oposição anunciou que entraria com uma ação de improbidade contra eles.

Quando os arquivos foram compartilhados com a Agência Pública, no início de 2021, optamos por procurar nomes que já estavam sob a mira das nossas investigações, como os financiadores e disseminadores de notícias falsas. Desde a eleição de Jair Bolsonaro, tentamos entender e revelar aos nossos leitores como funciona a rede que alimenta e inflama a militância bolsonarista espalhando desinformação – algo que virou uma eficiente ferramenta para a deterioração da democracia no Brasil.

Nos dados do Pandora Papers, encontramos os nomes dos empresários bolsonaristas Otávio Fakhoury e Marcos Bellizia, alvos do inquérito das fake news, do Supremo Tribunal Federal, que busca desvendar de onde vêm os recursos que pagam os canais responsáveis por espalhar mentiras e ataques aos ministros da Corte. Descobrimos que parte do dinheiro dos dois empresários está aplicada em offshores no exterior, o que dificulta o rastreamento pelas autoridades brasileiras.

As ligações de Fakhoury com a máquina de desinformação bolsonarista foram ficando mais claras ao longo da apuração. Além de apoiador fiel do presidente e de movimentos conservadores, ele assumiu a presidência do PTB de São Paulo em julho de 2021. No mesmo mês, o Instituto Força Brasil, do qual ele é vice-presidente, virou alvo da CPI da Pandemia por ter intermediado a reunião entre o grupo que oferecia imunizantes inexistentes da AstraZeneca e o número dois do Ministério da Saúde, o secretário-executivo Elcio Franco. A entidade, que recebeu R$310 mil do empresário, também é acusada de ter disseminado notícias falsas sobre vacinação, uso de máscaras e “tratamento precoce” contra a Covid-19.

Bellizia, ex-porta voz do movimento Nas Ruas, criado pela deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) em 2011 com a pauta antipetista, não quis nos receber ou responder nossas indagações, se resumindo a dizer que o que havíamos levantado não passava de falsas informações. Otávio Fakhoury nos concedeu uma entrevista de duas horas, em seu escritório na Avenida Faria Lima, em São Paulo, quando apresentou os documentos que comprovam que ele declarou suas offshores – com ativos que superam os 3 milhões de dólares – à Receita Federal, conforme determina a lei.

Naquele dia, em conversa com a repórter Ethel Rudnitzki, ele falou dos projetos que financiava, incluindo sua ideia de comprar uma rádio FM para fugir do que ele chama de censura das redes sociais. Mas não gostou muito de ser questionado sobre suas empresas no exterior, desaconselhando a publicação da reportagem.

Quando Otávio Fakhoury foi convocado a depor na CPI, tomamos primeiro um susto, com medo de que toda a nossa apuração fosse revelada antes de termos autorização para publicar nossa reportagem, às 13h30 do último domingo, 3 de outubro. Por outro lado, foi mais uma confirmação de que estávamos no caminho certo.

Assim como o empresário bolsonarista Luciano Hang, depoente do dia anterior, Fakhoury admitiu aos senadores que possuía empresas e contas no exterior, mas não deu mais explicações. Nossa reportagem traz detalhes sobre seus negócios e os motivos pelos quais recorreu às offshores: de acordo com ele, para fazer “planejamento fiscal”, ou seja, fugir dos tributos brasileiros. Durante o depoimento do empresário à CPI, o senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou que parte do dinheiro que financia as fake news no Brasil vem de offshores, conforme apontam as investigações dos registros bancários de sites e blogueiros acusados de disseminar notícias falsas.

É para isso que existem os Pandora Papers e outras investigações sobre paraísos fiscais: jogar luz sobre a indústria offshore, que permite a magnatas, empresários e políticos de todo o mundo manter suas atividades financeiras e fortunas longe dos olhos dos cidadãos comuns. Nada mais afinado à missão da Agência Pública, que desde seu nascimento busca trazer à tona informações de interesse público que os ricos e poderosos desejam esconder.

Por – Alice Maciel, Anna Beatriz Anjos e Ethel Rudnitzki

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