Orquestra Afrosinfônica completa 10 anos de resistência

Com música ancestral clássica, Orquestra Afrosinfônica completa 10 anos de resistência: ‘Tambores da cultura afro e indígena’ – Orquestra foi criada no centro de Salvador em 2009. Atualmente, 22 músicos integram equipe, que se prepara para lançar novo álbum.

Desconstruindo a estética mais tradicional de uma orquestra, a Afrosinfônica surgiu na cena soteropolitana com a missão de evidenciar a musicalidade afro-brasileira e potencializar a cultura baiana. Após 10 anos da criação, a equipe se desafia todos os dias para continuar com o trabalho e enfrentar os frequentes casos de preconceito.

Desde 2009, quando foi criado pelo maestro Ubiratan Marques, o grupo musical canta a ancestralidade não apenas para resgatar a história, mas para que ela não seja esquecida.

“A orquestra é uma missão. É a missão da militância negra, mas com mensagens também para os indígenas. A gente sempre está lutando e levando a mensagem em prol do povo que precisa de justiça, reparação. Não precisa dizer muita coisa. Quando a orquestra entra, parece um exército. É uma missão mesmo. O tempo todo lutando contra a guerra. Ninguém está mendigando nada. Apenas buscando o equilíbrio, o justo”, afirmou o maestro Ubiratan.

Na prática, o que os 22 componentes fazem não é se apoiar apenas na base clássica da música europeia, e sim mapear e tornar sonora a riqueza musical do povo a qual estão inseridos. Há indícios de clássicos sim, nos instrumentos de sopro e cordas. Mas existe a forte influência dos tambores africanos mesclados com as histórias diárias.

“Nós fazemos um trabalho diferente. A gente tem uma instrumentação afro-brasileira, os tambores da cultura afro e indígena. Temos cantos em Iorubá, gegê, nagô, com pés na nação Angola. Somos clássicos em alguns instrumentos, mas Afrosinfônica na instrumentação, língua e história. A gente fala das ruas, das nossas coisas. O que a gente faz é o que todos, que têm o mínimo de consciência, fazem. Falar das nossas coisas”, pontuou o maestro.

Para Tâmara Pessoa, que está no grupo desde a criação, a orquestra tem extrema importância no resgate da ancestralidade e também na luta pela resistência do povo. “Além de ser um grande aprendizado, é uma ponte de conexão com nossos ancestrais. Com todo legado que eles deixaram para gente. Continuamos seguindo as influências dele. Externalizando isso através da música. É a ferramenta que a gente tem para continuar resistindo, mostrando o valor que a gente tem. A nossa identidade”, disse.

O sentimento dela reflete nas palavras de Raquel Monteiro, que está no grupo há sete anos. A musicista vê a resistência como o principal legado para a comunidade do entorno. Com isso, eles usam a ancestralidade para continuar, representar e também se sentirem representados.

“Resistência a tudo que nos foi tirado e negado. Essa é nossa contribuição. A Afrosinfônica representa música preta. São músicos pretos, fazendo música preta. É isso que eu vejo. Resistência. Resistir o tempo todo. A ancestralidade falando o tempo todo, através da música”, disse.

Apesar disso, a contribuição não está apenas no palco. A equipe tem feito um forte trabalho de socialização através da educação. Anualmente, oferece cursos para pessoas interessadas em aprender música. A mensalidade é gratuita, mas uma taxa de inscrição pode ser cobrada na matrícula.

Cursos como Música e Mercado (para quem quer se tornar professor de música) e Leitura Rítmica para Ritmistas, são oferecidos pela Orquestra. Normalmente, as aulas têm duração de um ano a um ano e meio. As inscrições também são abertas sempre que uma turma é encerrada.

Dia a dia marcado pelo preconceito – “A gente se coloca em desafios o tempo todo. A gente precisa alcançar essa tal excelência entre nós, de alguma forma. A gente está o tempo todo fazendo planejamentos. E algumas pessoas chegam com preconceito. É natural que se tenha preconceito com o popular. As pessoas dizem que essas músicas, que as músicas que fazemos, se aprendem nas esquinas”, contou Ubiratan Marques.

Nas lembranças dos músicos, não existe uma data precisa do último caso, nem de quantas vezes já passaram por isso. Mas, eles contam que sempre são questionados pelo trabalho que realizam.

“O preconceito é uma ignorância. As pessoas questionam o nosso trabalho o tempo todo. O preconceito é horrível. Talvez seja porque o que fazemos é muito novo, ou também porque nós fazemos militância. A nossa música é muito natural, mas, apesar disso, o preconceito vem de todas as formas”, pontuou o maestro.

Para Tâmara, o julgamento começa desde o fato deles serem negros até o tipo de música que fazem, ligada mais a ancestralidade do que aos aspectos europeus.

“Isso faz parte do dia a dia. Basta ter uma pele escura para estar o tempo todo sendo julgado. Como consequência, a orquestra passa por isso. Vão escolher uma orquestra que faça um som mais europeu, mais ligado a cultura branca, ao que está dentro do padrão? Ou a que faz música com o toque afro-brasileiro? O que acham? Tem essa barreira, tem todo esse preconceito que a gente tenta cruzar”, comentou.

Apesar disso, a luta não para. Em meio aos obstáculos, os participantes falam sobre a importância de estarem na orquestra. Do sentimento de pertencimento e também de representatividade.

“É um grupo onde eu posso ser eu. Mulher preta, gorda, grisalha, de 55 anos. Eu não preciso inventar personagens. Eu me sinto segura, como se fosse a extensão da minha casa. Cada dia é uma emoção diferente”, afirmou Raquel Monteiro.

“Além de ser um grande aprendizado, é uma ponte de conexão com nossos ancestrais. Com todo legado que eles deixaram pra gente. Continuamos seguindo as influências dele. Externalizando isso através da música. É a ferramenta que a gente tem para continuar resistindo, mostrando o valor que a gente tem. A nossa identidade”, completou Tâmara.

10 anos de Afrosinfônica – O grupo completou 10 anos de história em 10 de novembro deste ano. Para celebrar o momento, a orquestra dividiu a comemoração em três partes: a disponibilização do CD “Branco” nas plataformas digitais; o lançamento do disco “Orin: a língua dos anjos”, e também um conjunto de quatro shows na Bahia e em outros dois estados.

Segundo o maestro, a previsão é que a disponibilização do CD, lançado em 2015, de forma digital, ocorra até a última semana de novembro. O disco tem dez faixas e reúne anos de trabalho da Orquestra. Dentre as canções, tem a que dá nome ao álbum e a trilogia A Feira (Feira das Sete Portas, de Água de Meninos e também a Feira de São Joaquim), criada em parceria com Mateus Aleluia.

Já “Orin: a língua dos anjos”, que vai ser o segundo álbum da carreira do grupo, deve ser lançado em maio, com 12 faixas. As composições são do próprio Ubiratan Marques, com parceria de Mateus Aleluia, e foram criadas ao longo deste ano.

Os quatros shows, intitulado de “Afrosinfônica com grupos afrodescendentes”, por sua vez, já começam no próximo 22 de Novembro, em Itapuã, e segue até maio. Além de Salvador, há apresentações em Pernambuco (Orquestra junto Nação Maracatu Estrela Brilhante) e também em Minas Gerais, junto com o Congado Irmandade Nossa Senhor do Rosário.

Fonte: G1

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