Pais e professores estão incertos sobre volta às aulas 100% presenciais

Anunciadas pelo governador na sexta (8), as aulas da rede estadual voltarão de forma 100% presencial a partir do próximo dia 18 de outubro, na terceira fase do ano letivo continuum 2020/21. O anúncio foi feito por Rui Costa durante visita à cidade de Floresta Azul, no sul baiano, mas, depois, o assunto também apareceu nas suas redes sociais. “O retorno acontecerá de forma segura, respeitando todos os protocolos, como já ocorria no modelo híbrido”, disse.

Mas não é o que dizem alguns profissionais da educação, para os quais o sistema nunca foi híbrido. Acontece que o rodízio das aulas presenciais dia sim, dia não, se aplica apenas aos alunos, que, por muitas vezes, utilizam um transporte público lotado para se deslocarem até as aulas e convivem em bairros cujo uso de máscara é raridade. É o que explica Omar Medina, professor de biologia do Colégio Estadual Cidade de Curitiba, no Engenho Velho de Brotas, em Salvador. Ele argumenta que é a favor da volta às aulas 100% presenciais contanto que o esquema vacinal esteja completo no estado.

“Temos que entender que a rede privada e a rede pública não têm o mesmo funcionamento. Enquanto o sistema híbrido pode funcionar para a privada, que instala equipamentos para transmissão ao vivo para que os alunos em casa assistam as mesmas aulas, na escola em que trabalho, a metade da turma que não está na escola não assiste aula. Então o professor tem que repetir a mesma aula para uma mesma turma, perdendo sua sequência didática e isso se torna ainda pior porque temos que correr com o assunto, dar assuntos de dois anos em um”.

O ano letivo 2020/21 na rede estadual de ensino começou no dia 15 de março e migrou para o híbrido, com aulas semipresenciais, no dia 26 de julho para o Ensino Médio e no dia 9 de agosto para o Ensino Fundamental. Desde então, os alunos têm aprendido assuntos equivalentes a dois anos letivos, divididos em 6 unidades, que só terminarão no dia 26 de dezembro. Segundo a Secretaria da Educação do Estado (SEC), são 125.481 estudantes, de 388 escolas, que devem comparecer aos colégios estaduais da Bahia.

“Os protocolos de distanciamento existem, mas é difícil para os alunos obedecerem. Com frequência, temos que chamar a atenção dos alunos para tirarem máscaras do queixo, evitarem os abraços. E isso acontece porque a realidade desses alunos não os permite ver muito sentido nessa situação, uma vez que pegam ônibus cheios para deslocamento e moram em bairros em que não há protocolos. Para não mencionar a escalada de violência que aumentou durante a pandemia. Muitos pais não permitem que os filhos vão para as aulas que, inclusive, onde trabalho já foram suspensas algumas vezes esse ano por briga de facções, por exemplo”, afirma Medina.

É o caso de Helen Vargas, mãe de uma aluna de 13 anos do Colégio da Polícia Militar na Ribeira. Gestante de alto risco, não manda a filha para a escola nem enquanto o sistema está híbrido. De acordo com Helen, a cada semana surge um novo caso de coronavírus na escola. “Não vou mandar, já entrei em contato com a escola, e espero que eles aceitem, pois ela está estudando do mesmo jeito. Ela não sai nem na rua para encontrar amigos, não vou mandar ela para encontrar um monte de aluno que mal tomou a primeira dose, não me sinto segura”.

Isso porque o ensino híbrido ainda é possibilidade para a filha de Helen. No Colégio Onildo Raimundo de Cristo, na zona rural de Valença, a professora de inglês Paloma Oliveira da Fonseca revela que as aulas não estão acontecendo nem em ensino híbrido. Os estudantes estão dependentes do transporte da região. “Não está tendo transporte que se adeque à realidade do que a pandemia pede, com distanciamento. Antes da pandemia, vinha um aluno no colo do outro. Essa é a realidade das escolas no campo”.

Nas escolas em zona urbana no interior do estado, entretanto, já há aulas híbridas, mas os alunos que moram em regiões rurais ainda não frequentam. A professora Elisângela do Monte, do Colégio Estadual Gentil Paraíso Martin, também em Valença, conta que isso é realidade no local em que ensina, mas também em outras cidades no Baixo Sul da Bahia, em municípios como Camamu.

“Se os alunos moram em zona rural, também não vêm à escola, devido a essa dificuldade no transporte. Se as aulas voltarem presencialmente agora, os nossos alunos ficarão prejudicados, atrasados em relação aos demais que podem ter acesso à escola, porque não vão vir simplesmente”, avalia.

O vice-diretor do Colégio Estadual Mestre Paulo dos Anjos, no Bairro da Paz, Fernando Lima, explica que, além desses, os motivos que o fazem notar a maior ausência dos alunos durante o período híbrido são alunos com comorbidades e os que foram morar provisoriamente no interior da Bahia durante o período de pandemia. Para ele, as escolas que estão seguindo os protocolos de segurança da covid têm condições de retornar às aulas totalmente presenciais.

“Alguns alunos são os que sustentam a família e, por isso, faltam aulas, principalmente durante o período noturno, que são pessoas mais velhas. Por isso, grande parte das aulas diurnas estão bem frequentadas, as noturnas que registram muita evasão de pessoas. Acredito que isso mude com a conclusão do processo de vacinação”, diz.

De acordo com a secretária da Saúde da Bahia, Tereza Paim, o retorno das atividades letivas no modelo presencial se relaciona ao avanço da vacinação e às taxas de mortalidade, incidência e ocupação de leitos de UTI exclusivos para o tratamento da covid-19. “Neste cenário, a Bahia já vacinou mais de 10 milhões de pessoas com a primeira dose ou dose única, perfazendo mais de 80% da população com 12 anos ou mais, que está estimada em 12,7 milhões. Também temos a segunda menor taxa de mortalidade do Brasil e a sexta menor incidência, com taxas de ocupação de leitos de UTI abaixo de 30% de modo sustentado”, avalia.

Preparação e nova rotina
Como preparação para as aulas semipresenciais, as escolas da rede estadual receberam investimentos da ordem de R$ 305 milhões, disponibilizados para reforma, manutenção e adequações. A Secretaria de Educação também investiu R$ 6,1 milhões na aquisição de fardamento escolar e distribuiu 2 milhões de máscaras, via doação da Secretaria de Planejamento (Seplan), para a distribuição nas escolas.

O secretário da Educação do Estado, Jerônimo Rodrigues, explicou a divisão. “Foram destinados R$ 250 milhões, do Tesouro Estadual, para as escolas pelo Programa Retorno Escolar Seguro (PRES). Os recursos transferidos para a conta da Caixa Escolar visam a cobertura de despesas de custeio e capital até o final do ano letivo, voltados à manutenção física e pedagógica das unidades escolares, conforme o protocolo de biossegurança”, afirmou.

Toda a comunidade escolar também se adaptou à nova rotina de atividades letivas, que acontecem de segunda a sábado. Ao entrar na escola, os estudantes em uso obrigatório de máscaras já têm suas temperaturas aferidas por um funcionário da unidade. Eles também são direcionados para fazer a higienização das mãos, em pias disponíveis nos colégios, ou por meio dos dispensers de álcool em gel 70º, instalados em locais estratégicos e de fácil acesso.

Fonte: Correio24horas

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