Personagens infantis viraram tendência nas marcas de luxo

Campanha da Gucci

Por que grifes como Omega, Gucci e Montblanc usam imagens de personagens infantis? Conexão com público jovem e mensagem positiva estão entre as razões.

A Omega, renomada marca de relojoaria suíça, acaba de apresentar sua mais nova versão do clássico modelo Speedmaster. Trata-se de um cronógrafo icônico, com movimento mecânico certificado, e que chegará ao Brasil pelo preço de 59.800 reais.

O que esse relógio tem de diferente é principalmente a imagem do cãozinho Snoopy em seu famoso traje espacial no subdial azul às 9 horas. O modelo se chama, apropriadamente, Speedmaster “Silver Snoopy Award” 50º aniversário.

Por que um relógio tão sofisticado, e tão caro, voltado em tese para um público maduro que tem como pagar o valor sugerido, está associado a uma figura infantil? Para entender a relação é preciso voltar um pouco no tempo.

Em 1970, a Omega recebeu o título “Silver Snoopy Award” dos astronautas da NASA, como reconhecimento pelas contribuições da marca para a exploração espacial, bem como o apoio vital da Speedmaster durante o resgate da Apollo 13. Agora, 50 anos depois, esse relógio especial foi criado em homenagem à ocasião.

O modelo traz mostrador em prata, com mais dois subdials azuis, bem como marcadores de horas e ponteiros em forma de ângulo PVD azuis. Mas é no fundo da caixa que a diversão começa. Quando o ponteiro dos segundos do cronógrafo está em uso, o Snoopy faz uma viagem ao redor da lua, assim como fez a tripulação da Apollo 13. No caso, a superfície lunar é decorada no cristal de safira com uma metalização microestruturada exclusiva.

O disco terrestre no relógio gira uma vez por minuto, em sincronia com o pequeno ponteiro dos segundos do relógio, e simboliza a rotação precisa da Terra. A citação icônica, “Eyes on the Stars”, está incluída no universo negro. O modelo vem com uma caixa de apresentação Apollo 13 e uma lupa para ajudar o futuro proprietário a ver os detalhes.

A conexão entre o Snoopy e a NASA começou na década de 1960, quando o criador Charles M. Schulz começou a desenhar histórias em quadrinhos retratando o cachorro na lua. As animações resumiam o entusiasmo à época pelas aventuras espaciais. O  Snoopy logo virou um símbolo de exploração do espaço.

Em 1968, quando a NASA foi em busca de um rosto para seu programa de segurança, o Snoopy era a escolha óbvia. O personagem se tornou tão querido pelos próprios astronautas americanos, a ponto de um prêmio ter isso criado com seu nome. O Silver Snoopy Award retrata o beagle em um traje espacial com o famoso lenço Flying Ace e é entregue a pessoas ou empresas que tenham contribuído para o sucesso das missões de vôo espacial.

A Omega recebeu a honra em 1970 por ter equipado os astronautas em todas as missões espaciais tripuladas em 1965 e se tornou o primeiro relógio usado na lua em 1969. Na missão da Apollo 13, em 1970, um tanque de oxigênio explodiu a bordo e a tripulação teve de ser transferida para o módulo lunar. E aí a excelência da manufatura teve um papel decisivo.

Como a missão havia se desviado de seu curso, o módulo entraria na atmosfera da Terra no ângulo errado. Para reajustar manualmente o curso da nave, era necessária uma queima exata de 14 segundos do motor. Os cronógrafos da Omega marcaram o tempo – e os astronautas conseguiram voltar em segurança à Terra.

Portanto, uma das respostas para a pergunta do porquê da conexão entre um personagem animado e uma marca sofisticada é a mensagem que se quer passar.

Não se trata de um fenômeno novo e muito menos um caso isolado. A marca francesa Givenchy causou barulho entre os fashionistas em 2013 com roupas e bolsas com estampas do Bambi. De lá para cá, os personagens da Disney passaram a ser tendência nas passarelas.

No desfile em Milão da coleção primavera verão de 2017, a Gucci trouxe o Pato Donald nas estampas de suas roupas masculinas. Se você entrar hoje no site da Farfetch, marketplace de marcas de moda, vai encontrar o Mickey em camisetas, moletons, sneakers da grife. E a preços pouco afetivos. Uma mochila com o desenho do camundongo custa 11.750 reais.

Escapismo? Talvez. Jovialidade? Sem dúvida. Marcas de luxo cada vez mais percebem que precisam descer do pedestal e trazer frescor a suas coleções, ainda que por valores condizentes com sua história. Sem falar no vínculo afetivo com os consumidores. Quem não se divertiu com o Mickey na infância?

O Pequeno Príncipe, criado por Saint-Exupéry, conseguiu a proeza de estampar coleções de duas marcas do mesmo grupo Richemont. Desde 2005 a IWC traz peças com o nome do personagem, como o Big Pilot’s Watch Constant-Force Tourbillon Edition “Le Petit Prince”.

O mesmo Pequeno Príncipe também dá nome a coleções de instrumentos de escritas da Montblanc, como a Meisterstück Le Petit Prince Special Edition – Aviador.

Nesse caso, a mensagem tanto do livro como das canetas e dos relógios é a mesma:  ideias, sonhos e pensamentos precisam ser compartilhados de uma geração para a outra. Assim como peças caras, atemporais, que provavelmente ficarão de herança para os descendentes dos compradores.

Assim como Givenchy e Gucci, a Dolce & Gabbana também lançou vestidos inspirados em princesas da Disney. A grife italiana foi além: criou seus próprios personagens infantis. São bonecos dos dois criadores das marcas, Domenico Dolce e Stefano Gabbana, que estampam peças de roupas e enfeitam as lojas da grife.

Qual a mensagem aqui? Provavelmente, nesse caso, apenas doses de diversão, irreverência e autoironia…

 

Fonte: Revista Exame

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here