Restauração Real: Solar Amado Bahia renasce após reforma e vira ‘museu do sorvete’

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Imagine um grande sorvete, com várias bolas e sabores diversos. Nata-goiaba, manga, coco, amendoim, pavê, pitanga. Agora, misture esse arco-íris de gelo cremoso em um mesmo recipiente. Pronto: se essa junção de cores e sabores pudesse se tornar um imóvel para uma família morar, ela seria o Solar Amado Bahia, localizado no Porto dos Tanheiros, Orla da Ribeira, em Salvador. Derretido pelo descuido e omissão com o patrimônio histórico e artístico, ele agora ressurge para se tornar ao mesmo tempo uma sorveteria, um museu do sorvete e um espaço cultural.

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) em 1981, o solar estava completamente abandonado desde 1993, quando um funcionário acionou a Justiça após sofrer uma série de reduções salariais da escola que por alguns anos funcionou no local. Construído pelo comerciante de carnes Francisco Amado Bahia, o casarão foi doado em 1949 à Associação dos Empregados do Comércio da Bahia. Despois de um grande imbróglio, o casarão acabou leiloado por R$ 1,5 milhão em outubro de 2017.

O dono do lance, o empresário Natanael Couto, proprietário de fábricas de sorvete da franquia Sorvetes Real, com sede em São Cristóvão, na Cidade Baixa e em Lauro de Freitas, namorava o imóvel toda vez que passava pela frente dele. “Eu sentia que ele seria meu e nunca desisti”, conta Natanael, conhecido como Tuca, que, além do valor de arremate investiu cerca de R$ 700 mil em seu restauro.

“Na verdade, não sei ao certo. A gente se perde nos números, até porque tive alguns prejuízos com profissionais mal intencionados. Por isso prefiro nem calcular”, riu Tuca.

Agora, o espaço vai se chamar Solar Amado Bahia Museu do Sorvete. A reportagem do CORREIO é a primeira a ter acesso ao espaço reformado. O nome “museu” seria uma espécie de nome fantasia, como o Museu Du Ritmo. O lugar não exatamente vai contar a história do sorvete, mas será um espaço cultural com três usos diferentes. O casarão propriamente dito abrigará o “museu”, com referências históricas e lúdicas à fabricação de sorvetes, além de se propor a receber eventos e exposições. A taxa de manutenção será de R$ 10.

“Claro, teremos peças e máquinas antigas de fazer sorvete expostas. Mas, a ideia é que as pessoas possam visitar o solar e tê-lo como espaço cultural”, explica Tuca.

No imóvel anexo ao casarão funcionará a sorveteria, que poderá ser frequentada independente do solar e não terá taxa de entrada. Um terceiro espaço ainda vai receber uma loja de souvenires da Sorvetes Real.

As próprias imagens do “antes e depois” mostram que a restauração do espaço foi minuciosa. Apesar disso, em um ano e meio, a reforma dos 548 metros quadrados de área construída está quase pronta. O solar deve reabrir suas portas para o público no dia 8 de maio, com uma visitação no dia anterior para imprensa e autoridades. “Foi rápido porque quando eu meto a mão em alguma coisa eu quero terminar logo”.

Só para se ter uma ideia, a casa tem 107 portas. Todas foram restauradas. “A gente tinha que aproveitar quase tudo da casa. A gente não podia pegar aquelas portas de cem anos e jogar fora. Teve que restaurar tudo. Tem porta ali com quatro emendas”.

Mas, a parte mais trabalhosa foi a pintura das paredes em escaiolas, que está em quase todos os cômodos da casa. O trabalho em escaiole tem uma impressionante aparência de mármore. “Sem dúvida a parte da pintura parietal foi a mais delicada”, afirma a arquiteta Jaqueline Suzano, que assina o projeto de restauro. “Em Salvador, esse tipo de pintura só tem nessa casa, no Palácio Rio Branco e em uma igreja no Comércio”.

“A pintura da fachada estava lavada. Sequer se conseguia ver. É um orgulho imenso ter participado desse trabalho”, diz Jaqueline. Quem meteu a mão na massa e coordenou o restauro das escaiole foi o restaurador Jonilson Farias, o Sino, de Cachoeira, acostumado a recuperar peças e monumentos da cidade histórica. “Fizemos prospecções em toda a casa para buscar as cores originais e chegar o mais perto delas onde ela não mais existiam”.

O restauro foi acompanhado de perto pelo Iphan, através de um arquiteto consultor. “No início eles não se interessaram porque a casa estava muito acabada. Quando eles viram que a gente tava conseguindo fazer, foram bem sensíveis”. José Dirson Argolo, professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), serviu de consultor para as pinturas. “Aquele homem é um anjo. Ele fez o projeto das pinturas, do altar e dos espelhos a preço de custo pra gente”.

Miscelânea
Apesar dos seus mais de 114 anos, o Solar Amado Bahia parece que foi feito para abrigar uma sorveteria. Construído e esculpido artesanalmente, como um sorvete de fruta da Real, o solar é um projeto colonial de arquitetura eclética e, nos seus 52 cômodos, reúne elementos de diferentes países europeus. Uma miscelânea de cores, estilos e formas que fascinou o empresário. Tuca circula pela casa observando e tocando cada peça e parede restaurada com carinho e emoção.

“Você sempre foi encantado por essas coisas antigas, né”, fez a pergunta “obvia” a fotógrafa Marina Silva. “Fui nada! Eu sempre fui encantado por vender sorvete na Ribeira”, respondeu Tuca. Por isso, no final das contas, o Solar Amado Bahia Museu do Sorvete é a realização do sonho de “um louco”. “Quando arrematei essa casa as pessoas olharam para mim dizendo: ‘esse cara é maluco, como pode botar dinheiro em um casarão todo acabado? Antes de eu dar o lance, aliás, um senhor chegou a dizer: ‘Quem vai querer aquela casa? Isso é coisa de doido!’”.

De origem humilde, vindo do interior, Natanael Couto usou seu empreendedorismo nato para, ano após ano, criar um pequeno império do sorvete. Um império que há muitos anos divide espaço com outras marcas, como o Capelinha. Agora, como fabricante tanto de picolés quanto de sorvetes, a Real deve desafiar não só o coirmão de São Caetano como tem tudo para rivalizar com a tradicional Sorveteria da Ribeira, que fica a uns 200 metros do Solar Amado Bahia. Claro, sempre buscando um diferencial.

Dívida de R$ 1,7 milhão levou solar a leilão
Avaliado em R$ 3,7 milhões pela Coordenadoria de Execução do TRT5, o Solar Amado Bahia passou por um imbróglio aparentemente sem fim até, finalmente, encontrar alguém que desse a ele o destino merecido. Foram necessários dois leilões para que ele fosse arrematado. No primeiro, ninguém levou. No segundo, em outubro de 2017, Natanael Couto pegou e não largou mais. Para isso desembolsou R$1,5 milhão. O pregão foi coordenado pelo juiz da Central de Execução Thiago Barbosa Ferraz de Andrade e conduzido pela Nordeste Leilões.

O motivo do leilão foi uma dívida trabalhista da Associação de Empregados do Comércio da Bahia, que desde 1949 ocupava o Solar. Por um tempo, o casarão também foi uma escola. De acordo com o diretor do TRT5, Rogério Fagundes, o débito era resultado de um equívoco administrativo entre a Associação de Empregados do Comércio da Bahia e um funcionário. O casarão foi doado à associação em 1949.

“Ele (o funcionário) foi vice-diretor da escola que funcionou no casarão, mas teve alguns problemas em relação a pagamentos de horas extras e outras questões trabalhistas. A dívida estava avaliada em R$ 1,7 milhão”, disse ao CORREIO no ano passado Rogério Fagundes. Segundo disse à época Frederico Leitão, tataraneto do comerciante Francisco Amado Bahia, o imóvel foi doado à associação para atender a uma função social, o que nunca ocorreu.

Arquitetura eclética
Francisco Amado Bahia era um novo rico e queria mostrar todo o seu poder financeiro e requinte. Por isso, construiu o Solar com o glamour que ele gostaria, ou seja, com referências de diversos países europeus. O solar é um dos exemplares mais representativos da arquitetura eclética do século XIX.

A arquitetura influenciada pelo ecletismo da época documenta o modo de vida das ricas famílias baianas. O imóvel possui três pavimentos, uma capela com entalhes dourados, paredes revestidas de espelhos franceses, pisos em mármores carrara, vidros de janelas e portas finos como cristais, estruturas externas metálicas importadas da França.

A inauguração do solar, em 8 de dezembro de 1904, foi marcada pela celebração dos casamentos das filhas mais velhas de Amado Bahia – Clara e Julieta.

Solar foi invadido por sem tetos e sofreu saques de vândalos
Enquanto nos apresentava o novo Solar Amado Bahia, Natanael Couto, o Tuca, nos fez um apelo. A “santa” que ficava no altar da casa sumiu e ele ainda tem esperança de que ela reapareça. A Nossa Senhora da Conceição teria sido levada por uma pessoa que prometeu cuidar dela. “Agora que a casa está recuperada, pedimos que essa pessoa devolva a peça. Disseram que foi antes das invasões”.

Mas, a imagem é apenas uma da centenas de peças que desapareceram do solar. Isso porque a casa sofreu diversos saques, inclusive noticiados nos jornais, sem falar nas invasões de sem-tetos. “Vândalos saqueiam o Solar Amado Bahia em Itapagipe”, manchetou o próprio Correio da Bahia, em 5 de maio de 2006.

“Com vista para a exuberante península de Itapagipe, o casarão de número 80 da Rua Mem de Sá, construído em 1901, é quase uma ruína. Além dos grupos de turistas que ainda insistem em fotografá-lo, o solar, que já foi ocupado pelo movimento sem-teto, vem atraindo agora a atenção de vândalos que, na madrugada ou à luz do dia, invadem e furtam peças da construção centenária”, escreveu. “A maioria dos móveis da casa foi levada. Sobraram poucos”, confirma Patrícia Cordeiro, esposa de Tuca.

Na época, a depredação dos gradis que contornam a fachada do prédio já era visível.

“Peças feitas de ferro fundido com chumbo, importadas da França, estão sendo levadas para serem vendidas em ferro-velho”, denunciava o diretor de patrimônio da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (AECB), Hamilton Rufino. Esse mesmo gradil consumiu R$ 70 mil para ser restaurado.

Por conta das invasões, aliás, o terreno do Solar chegou a perder área, diz Natanael Couto, que arrematou o imóvel. Tanto que a nova escritura calcula 1.903 metros quadrados. Enquanto que, antes, a área total do terreno era de 2.485. “Uma redução de quase 500 metros quadrados de área”.

 

Fonte: jornal Correio

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